São João de Deus, Fundador: o orante, o penitente, o caridoso

por Luís Carlos Azevedo
A existência de São João de Deus transcorreu na primeira metade do século XVI, constituindo sua vida vigorosa refutação dos erros nefastos de Lutero, que se alastravam então pela Europa. O pseudo-reformador subversivo, além de pregar a inutilidade das boas obras, aconselhava claramente o pecado.
–– “Sê pecador e peca firmemente, mas com mais firmeza ainda vê e alegra-te em Cristo, vence a dor do pecado, da morte e do mundo. Durante a vida devemos pecar bastante. Basta que pela misericórdia de Deus conheçamos o cordeiro que tira os pecados do mundo. Dele não nos há de separar o pecado, ainda que, em um dia, cometêssemos mil pecados carnais e mil homicídios” (Dictionnaire de Théologie Catholique, Librairie Paris, 1926, verbete Lutero).
Ao contrário desse heresiarca e autêntico agente revolucionário, São João de Deus foi um filho diletíssimo da Igreja, Mãe e Mestra da verdade, inimiga irreconciliável do erro, do pecado e do mal, e fonte de todo o bem.
A procura da vocação
Nascido a 8 de março de 1495, em Montemor-o-Novo, pequena aldeia portuguesa do distrito e arquidiocese de Évora, no Alentejo, entregou ele sua alma a Deus, nesse mesmo dia do ano de 1550, cercado de todas as honras do Clero e da nobreza de Granada, na Espanha. Foram 55 anos totalmente consagrados ao serviço divino, louvor de Maria Santíssima, bem como de incansável dedicação aos doentes e pobres.
Desde a mais tenra idade sentiu enorme atração pelo sobrenatural. Aos oito anos de idade, ouvindo um sacerdote falar da magnificência do culto católico em Madri, ficou a tal ponto maravilhado que seus pais não conseguiram impedi-lo de seguir o missionário até a capital da Espanha.
Mas este teve que deixá-lo no Reino de Castela. Aí trabalhou com tanta dedicação para o Conde de Dropesa, que o capataz das terras quis dar-lhe sua filha em casamento. Mas o jovem João tinha o propósito de manter a castidade perfeita, e para atingir esse objetivo nutria terníssima devoção a Nossa Senhora e rezava diariamente o santo Rosário. Para mais comodamente recusar a aliança matrimonial, alistou-se nas tropas do Imperador Carlos V, para combater os franceses.
A frivolidade da vida de caserna pouco a pouco afastou-o da costumeira piedade e a Providência permitiu uma série de reveses que o fizeram cair em si.
Renunciando às armas, voltou novamente ao antigo serviço, dedicando-se com tal solicitude aos interesses de seu patrão, que este tomou a propor-lhe a mão da filha. Para fugir das insistências, João retomou o partido das armas, desta vez para lutar na guerra movida por Carlos V contra os turcos maometanos. Animava-o ardente zelo pela santa expedição contra os infiéis.
Terminada a guerra, passou dias e noites em oração e exercícios de penitência para conhecer os desígnios de Deus a seu respeito, concluindo que devia se dedicar ao serviço dos infelizes.
Trabalhou inicialmente na África, procurando consolar e auxiliar os escravos cristãos, regressando mais tarde à Espanha, a conselho de um confessor.
Em Granada, teve oportunidade de ouvir o célebre pregador João de Ávila, cujo sermão impressionou-o profundamente. Passou a praticar tão ousadas penitências, que o tomavam por insensato. Mas o douto pregador, conhecido como Apóstolo da Andaluzia, distinguiu em João um extraordinário amor à penitência, aconselhando-o a dedicar-se a um gênero de vida que resultasse em proveito para o público. Era o ano de 1539, contando o santo 44 anos de idade.
Vocação para obras caritativas
Antes de empreender qualquer coisa, colocou-se sob a proteção da Santíssima Virgem e fez uma peregrinação ao santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, na Estremadura.
De regresso, alugou uma casa para recolher os pobres e enfermos. Atendia a suas necessidades com uma atividade, uma vigilância e um zelo tais que maravilharam toda a cidade, que não tardou a secundar seus esforços.
Foi assim que se deu a fundação da Ordem de Caridade dos Irmãos Hospitaleiros, no ano de 1540, a qual, por uma bênção visível do Céu, espalhou-se por toda a Cristandade.
O Bispo de Tuy, presidente da Câmara Real de Granada, convidou-o um dia para jantar. Propôs-lhe diversas questões, às quais o santo respondeu com tanto acerto e precisão, que o Bispo concebeu a respeito dele a mais alta idéia. Perguntando-lhe o nome, respondeu que se chamava João. –– Vos vos chamareis doravante João de Deus“, replicou o Bispo, e com este nome passou para a História.
A caridade de São João de Deus não se restringia aos hospitais que fundou, mas era universal. Afligia-se ao saber que alguém estava na indigência. Mandou fazer um levantamento completo de todos os pobres da província para prover às suas necessidades. A uns fornecia recursos para viverem em suas casas, a outros procurava trabalho. Não havia meio que não empregasse para consolar e assistir os membros sofredores do Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Depois de 10 anos de contínua assistência aos necessitados, altíssima contemplação e austera penitência, o Santo, atingido por grave enfermidade, faleceu assistido pelo Arcebispo de Granada. Foi sepultado com grande solenidade, participando dos funerais o Clero, a Corte e toda a nobreza.
Deus glorificou seu fiel servidor através de muitos milagres. O Papa Urbano VIII beatificou-o no ano de 1630 e o Papa Alexandre VIII canonizou-o em 1690.

O Papa Leão XIII tornou-o padroeiro dos Hospitais e dos Moribundos
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FONTE DE REFERÊNCIA
Pe. Inácio Maria Magnin, Vida Popular de São João de Deus, Editora Tipografia Fonseca Ltda., Porto, 1948, 4ª edição.

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