Vem, Menino Jesus! – Parte I

Vem, Menino Jesus! – Parte I
Esta comovedora história é um pouco longa para um post…. assim dividi em dois posts, para seguir o ditado latino Esto brevis et placebis; Se breve e agradaras. Passemos ao relato:

O Padre Norberto, testemunha da insurreição de Budapeste em 1956, fora um dos últimos fugitivos a chegar ao campo de refugiados húngaros. O seu aspecto revelava ainda as privações, as insônias e as provas terríveis por que passara. Tinha as feições crispadas e endurecidas, e nos seus olhos havia uma expressão de fria revolta. Olhando-o, compreendi o choque psicológico que a derrota lhe causara.

Ele chegava da fogueira horrível onde se queimara a seiva ardente de almas sedentas de liberdade e de independência. Nós éramos os que, na retaguarda, nada tínhamos feito. Como começar? Como interrogá-lo? Como quebrar esse ressentimento hostil, que o seu rosto nos transmitia? Tateando, eu lhe fiz meu pedido:

Conheço a tragédia que lhe esmagou a alma, e não quero reavivá-la. Mas peço-lhe que me fale da resistência espiritual do povo húngaro, da sua vivência, a despeito da derrota…

Transcrevo a seguir, com suas próprias palavras, o depoimento do Padre Norberto.

História do Padre Norberto

Vivi horas de esperança e de terror, mas o que mais me impressiona não é o sacrifício heróico dos adultos, e sim a coragem, a resistência das crianças, a grandeza das suas atitudes e das suas palavras. Dão lições aos grandes, e em seguida permanecem pequeninos, simples, humildes.

Eu poderia contar-lhe o que se passou na escola da minha paróquia. Mas para quê? Contar um milagre é, tantas vezes, despertar os sorrisos de vã superioridade de uns ou a incredulidade de outros. Crentes ou descrentes nos escutam, tanto uns quanto outros esquecidos de que o milagre é uma manifestação do poder divino.

Na escola da paróquia da qual fui expulso deu-se um fato surpreendente. O que aconteceu não poderia ser a alucinação coletiva de trinta e duas crianças e da sua professora, mas tem que ser aceito como um fato.

Gertrudes, atéia militante,
contra Ângela de dez anos


Gertrudes, a professora da escola, era uma atéia militante. Todas as suas lições giravam em torno da impiedade e da negação de Deus. Tudo lhe servia para denegrir, ridicularizar ou conspurcar a nossa Religião. O seu programa de ensino era simples: arrancar da alma das crianças a fé e formar legiões de pequeninos “sem Deus”. As crianças, intimidadas, não ousavam defender-se. No entanto, as suas famílias eram católicas e profundamente crentes nas suas práticas religiosas.

Eu era o cura da igreja paroquial, e reunia essas crianças para as lições do catecismo. Na Hungria, como nos outros países além da “cortina de ferro”, o ensino é assim: na família, na igreja, luta-se para que a crença não se perca, mas nas escolas semeia-se e impõe-se o ateísmo. Como pode sustentar-se a criança, nessa situação tão difícil e díspar? É então que a graça se manifesta e ampara as criancinhas.

Mesmo intimidadas, elas não se deixavam convencer com as zombarias que a mestra lhes fazia. Por meu lado, eu lutava para destruir no espírito delas qualquer má semente que tentasse germinar, e as fazia freqüentar os sacramentos. Coisa curiosa: Gertrudes, a professora, parecia adivinhar quais as alunas que tinham comungado, e eram essas as mais perseguidas. Certamente alguém espiava e lhe indicava as crianças… Mas a denúncia não vinha destas, sempre unidas e leais.

Na quarta classe havia uma menina de dez anos, chamada Ângela. Muito inteligente, muito bem dotada, era a melhor aluna da classe e da escola. As condiscípulas não invejavam a sua superioridade, porque ela tinha um coração de ouro e estava sempre pronta a ser prestativa.

Um dia, veio pedir-me licença para comungar diariamente. Perguntei-lhe:

Tu sabes a que te expões?

Ela riu-se, numa expressão alegre, e respondeu:

Senhor Padre, a mestra não conseguirá apanhar-me em falta, asseguro-lhe, e trabalharei melhor. Não me recuse o que lhe peço. Nos dias em que comungo, sinto-me mais forte. O Senhor Padre disse-me que eu devo dar bons exemplos. Para os dar, preciso me sentir forte.

Acedi, mas sentia-me inquieto. Desde esse dia, Ângela viveu um verdadeiro inferno. Apesar de saber sempre as lições, a mestra implicava continuamente com ela. A criança resistia, mas eu a sentia abatida. E perguntei-lhe:

Ângela, a perseguição que sofres é demasiado dura, não é verdade?

Jesus sofreu muito mais, quando O injuriavam. Não se compara com o pouco que sofro.

Ante esta coragem, fiquei maravilhado. Ângela não se queixava, mas as suas condiscípulas vinham contar-me os maus tratos que a mestra lhe infligia. Chorando, diziam que, de dia para dia, Gertrudes se tornava pior. Nem já se preocupava com as lições, o que queria era destruir a fé daquela alma tão forte, que se escondia em tão fraco corpinho.

Ângela sofria as perseguições até ser
conhecida na cidade e nos arrededores

As investidas contra Ângela revestiam-se de crueldade. A mestra esquecia o programa escolar, para espalhar em toda a classe as manhas dos “sem Deus”. Ângela lutava sozinha, e nem sempre sabia defender-se. Então ficava de pé, muda, a cabecinha curvada, o peito cheio de soluços, que vinham morrer-lhe na garganta. Sua fé continuava inquebrantável, mas como podia aquela criança defendê-la, ante a perversidade daquela mulher?

A partir de novembro, as lições da quarta classe passaram a ser autênticos duelos entre a professora e a pequena discípula. Aparentemente, a mestra triunfava e dizia sempre a última palavra. Todavia, a sua irritação era tão grande que até o silêncio de Ângela a punha fora de si. Aterradas, as outras crianças pediam-me que lhes valesse. Mas que podia eu fazer? Graças a Deus, Ângela continuava firme na sua fé, e a nós restava-nos rezar, e rezar com absoluta confiança na misericórdia divina.

O que se passava na escola tornou-se conhecido na cidade e arredores. No entanto, ninguém me censurava por continuar a consentir que Ângela comungasse diariamente. Não era mistério para ninguém que a mestra pretendia apenas roubar àquela frágil criança o tesouro da sua religiosidade. Os próprios pais a encorajavam a resistir, conhecendo bem a perseguição que fazia chorar tantas lágrimas àquela filha querida, e a crueldade que martirizava o seu pequeno coração.

Ângela tornou-se o ídolo de toda a gente. Todos admiravam a sua força de vontade, a persistência da sua crença, mas ela se entristecia, sentindo-se impotente para se defender e receosa de não possuir os argumentos para justificar a sua fé. Compreende-se esse desânimo. Que pode a inocência duma criança contra a astúcia duma mulher mal intencionada?

Continua no próximo post…

Divulgue: clique no envelopinho aí embaixo e envie este post a amigos.

 

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