Santa Gema Galgani: participação mística da Paixão de Cristo e renhidas batalhas antidiabólicas no recesso do lar

Santa Gema Galgani: participação mística da Paixão de Cristo e renhidas batalhas antidiabólicas no recesso do lar
Jovem italiana, falecida no início do século e quase desconhecida no Brasil, é certamente um providencial modelo de serenidade, espírito de renúncia, pureza e radicalidade antidemoníaca para a juventude intemperante e agitada da época do rock

Por Roberto Alves Leite

Há almas privilegiadas que não se consegue retratar sinteticamente, tal a multiplicidade de aspectos que as caracteriza. Gema Galgani, que morreu com apenas 25 anos de idade e viveu em casa de família, é uma delas. Seus pais, Henrique Galgani e Aurélia Landi, proporcionaram um ambiente de virtude favorável ao desabrochar de uma grande santa dos tempos modernos. Tinha um instinto de pudor extraordinário, porque sua mãe lhe ensinou que o corpo era um templo do Espírito Santo. Sofreu todas as dores da Paixão: foi flagelada, coroada de espinhos, teve seus ossos desconjuntados como Nosso Senhor. Passou por todas as formas de perseguição do demônio. Falava continuamente com o Anjo da Guarda, com Nosso Senhor e com Nossa Senhora. Como descrever tudo isso no exíguo espaço de um artigo?

Por isso limitar-nos-emos a apresentar alguns flashes dos diversos aspectos de suas virtudes e da santidade de sua curta vida.

Desde a infância, serenidade imperturbável

Gema Galgani nasceu em 12 de março de 1878, na cidade de Lucca, ao Norte da Itália.

Já aos cinco anos lia o Ofício de Nossa Senhora e o dos defuntos. A piedade desenvolvera nela uma majestade de porte que não se costuma encontrar em idade infantil. Embora fosse a mais jovem aluna de sua classe, inspirava um tal respeito que era tratada como a mais velha. Nada se fazia sem ela e todas as colegas a estimavam.

Com fisionomia serena, mostrava-se sempre a mesma, fosse elogiada ou repreendida. Sua atitude conservava uma calma imperturbável, embora fosse dotada de um temperamento vivo e ardente; era pacífica porque triunfava sobre si mesma. Quando alguém a provocava, respondia com um olhar seguido de um sorriso tão meigo que algumas vezes desarmava o adversário na hora.

Reprimenda do Anjo da Guarda e audição da voz de Jesus

Certa vez saiu a passeio com um relógio de ouro e uma cruz do mesmo metal, que recebera de presente. Ao voltar foi repreendida pelo Anjo da Guarda que lhe disse que as únicas jóias que embelezam a esposa de um rei crucificado são os espinhos e a cruz. A impressão foi profunda: a partir desse dia abandonou as modas e os adornos. Foi a primeira vez que o Anjo lhe apareceu.

A partir dessa época, começou também a ouvir a voz de Jesus.

Aos vinte anos era dotada de porte nobre e gracioso. Sua pureza, recolhimento e modéstia apenas lhe acrescentavam mais encanto. Nessa época foi atingida por grave enfermidade na coluna lombar, que lhe causava dores atrozes, obrigando-a a uma imobilidade quase completa. Tudo parecia conduzi-la à morte em meio a cruéis sofrimentos.

Mas Jesus queria prolongar sua vida para aumentar-lhe a santidade. E assim como lhe mandou uma doença que se prolongou por doze meses, enviou-lhe a cura de modo instantâneo.

Sofrimento: escola de amor

Sua escola para a santidade foi o sofrimento. Nosso Senhor dizia-me que deveria apreender primeiro a sofrer, pois o sofrimento ensina a amar.

Nessa via, a primeira grande graça que recebeu foi a contrição dos pecados. Ela narra que sentiu todas as potências da alma entrarem em misterioso recolhimento: a inteligência somente via os pecados e o horror da ofensa; a memória recordava-os, assim como os tormentos suportados por Jesus para nos salvar; e a vontade detestava-os, prometendo sofrer tudo para os expiar.

Teve a graça insigne de receber, em seu corpo, as mesmas lesões sofridas por Nosso Senhor Jesus Cristo em Sua Paixão. Foi levada ao Céu para receber os estigmas; e na flagelação vertia tanto sangue que as roupas lhe grudavam ao corpo. A coroação de espinhos deixava em sua cabeça picadas de onde vertia sangue. Além disso, sofreu todos os fenômenos físicos ocasionados pelas quedas e pela suspensão do corpo na Cruz.

Fenômenos místicos em meio à simplicidade doméstica

Sigamos os passos da santa entre seus familiares.

Aos 21 anos era humilde, dócil, respeitosa, incapaz de uma leviandade ou de um capricho. Ouvia duas missas antes que os outros levantassem, uma em preparação para a comunhão e outra em ação de graças. Ao regressar da igreja, juntava-se imediatamente às criadas para cuidar dos mais novos, tirar água, arrumar os quartos, lavar a louça, auxiliar a cozinheira e atender aos enfermos da casa.

Mesmo depois de ter visto a face de Jesus Crucificado, sofrido com Ele e contemplado os grandes mistérios da Redenção, encontrava-se perfeitamente disposta a presidir os divertimentos das crianças.

O Sacerdote que freqüentava a casa onde Gema morava, comentou que ela praticava as virtudes com tanto entusiasmo, constância e serenidade de espírito que pareciam ter-se-lhe tornado naturais.

Com esse entusiasmo socorria os pobres que batiam à porta. Acolhia-os, dava-lhes de comer, e logo perguntava se iam à Missa, se freqüentavam os sacramentos, se rezavam de manhã e à noite, se pensavam algumas vezes no que Jesus sofreu por nós, etc. Bem o contrário de certa assistência social dos dias de hoje, na qual a salvação da alma não entra em jogo.

Seu único desejo: santidade e semelhança com o Redentor

Embora dotada de grande vivacidade e penetração de espírito, decisão de caráter e força de alma, Gema pedia conselho, auxílio e direção para tudo, a fim de não deixar transparecer suas qualidades.

Ela queria a todo custo ser santa; e vivia com o desejo único de se parecer com Jesus. Sua sensibilidade às blasfêmias era tal que suava sangue quando as ouvia.

A virtude cuja preservação lhe mereceu as maiores atenções foi a castidade. Todas as mortificações, penitências, macerações da carne e, acima de tudo, a rigorosa guarda dos sentidos, tinham por fim principal a conservação da inocência. Seus cuidados nessa matéria eram levados a todos os extremos.

Intimidade com Nosso Senhor e com o Anjo da Guarda

A presença visível do Anjo da Guarda era para ela o que havia de mais natural. Encarregava-o de missões, consultava-o; à noite pedia que lhe fizesse o sinal da cruz na testa e velasse à sua cabeceira. Ao levantar-se, justificava-se dizendo que ia ocupar-se de um bem muito maior do que ele: Jesus. E partia, sem demora, para a igreja.

Estava acostumada a praticar com heroísmo a virtude da obediência. E, de modo especial, em relação à palavra do Pe. Germano de Santo Estanislau, C.S.S.R., seu diretor espiritual.

A própria santa relata o esforço que fazia para fugir de Jesus quando Mons. Volpi — seu confessor ordinário desde os sete anos de idade até sua morte — a proibiu de conversar com o Divino Salvador. Pois não acreditava nas visões com as quais ela era favorecida, julgando tratar-se de uma ilusão diabólica.

Certo dia recebeu autorização para conversar com o Salvador por determinado tempo; tendo-se esgotado o mesmo, disse: “Jesus, ide-Vos embora, não Vos quero mais!“. E observou que, apesar dessa “ofensa”, Ele não se encolerizou. O que a levou a manifestar continuamente sua alegria em obedecer.

Por obediência escreveu suas memórias. O demônio, furioso, roubou o manuscrito e levou-o ao inferno. Mais tarde, por meio de um exorcismo, foi obrigado a devolvê-lo; e até hoje existe o original todo chamuscado com o fogo daquele nefando lugar.

Vítima de atroz perseguição do demônio, enfrentava-o com zombaria

A perseguição do demônio foi geral e contra todas as suas virtudes.

Ele a atormentava com violentas dores de cabeça para impedir a oração, e a induzia a desobedecer ao seu diretor, dizendo ser ele um fanático e ignorante. Apareceu-lhe imitando Jesus chagado, ou então no confessionário como confessor. Entretanto, foi quando apareceu como um belo anjo que sofreu sua maior humilhação: tendo sido reconhecido, Gema pediu o socorro de Deus e de Maria Imaculada, e avançou cuspindo-lhe no rosto.

Muitas vezes, à invocação do Santíssimo Nome de Jesus, o maligno fugia a toda pressa, e ela o acompanhava com zombaria e francas gargalhadas para demonstrar seu desprezo.

Não podendo conseguir seus objetivos, o demônio aparecia-lhe como enorme cão, com a figura de um monstro, e a jogava de um lado para outro, rasgava sua pele, batia-lhe com a cabeça no chão. Para vingar-se de suas derrotas, transformou o quarto da santa em um prostíbulo do inferno, com aparições reais sob formas sempre novas, duma lascívia cínica e brutal.

No meio desses sofrimentos horríveis conservava sempre a serenidade e a placidez de alma. Nunca lhe saíram do peito aqueles suspiros e gemidos que a força da dor arranca até aos mais corajosos.

Gema não esquecia nenhum meio de defesa: cruz, relíquias dos santos, escapulários, exorcismos e, acima de tudo, recurso filial a Deus, à Maria Santíssima, ao Anjo da Guarda e ao seu diretor espiritual.

Morte plácida, conforme seu desejo, em dia de grande solenidade

Dia 11 de abril de 1903. Gema parecia adormecida e calma, mas um leve inclinar da cabeça indicava que havia falecido em seu leito de dor. Tudo tão suave, que muitos não perceberam o desenlace. Morreu placidamente, sem agonia, na data de uma importante festa litúrgica, como sempre desejou: era uma hora da tarde de Sábado Santo.

Além das memórias, dela nos restaram os colóquios de 150 êxtases, anotados pelas piedosas senhoras que a cercavam.

Em seu processo sobraram milagres tanto para a beatificação como para a canonização. Em 29 de novembro de 1931 foi promulgado, por Pio XI, o decreto reconhecendo a heroicidade de suas virtudes. O mesmo Papa a beatificou em 14 de maio de 1933, sendo canonizada por Pio XII em 2 de maio de 1940.
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Fonte de referência:
Pe. Germando de Santo Estanislau, Santa Gema Galgani, a flor da Paixão. Tradução do Pe. Matos Soares, 3a. ed., Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1940.
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