Os 26 mártires de Nagasaki: grande flash da história japonesa


Os 26 mártires de Nagasaki: grande flash da história japonesa
A Providência Divina não pode ficar indiferente a um dos mais heróicos martírios coletivos da História da Igreja. O sangue dos mártires de Nagasaki poderá ainda dar frutos magníficos de conversão num solo hoje ressecado pelo materialismo pagão

A evangelização do Japão teve início em 15 de agosto de 1549, quando São Francisco Xavier pisou pela primeira vez o solo nipônico, e começou a perfumar o Império do Sol Nascente com o odor de suas virtudes e dons admiráveis.

Os missionários jesuítas empreenderam com vigor e coragem a obra da salvação dos gentios japoneses. Empolgantes lances, cruciais situações, conversões espetaculares, dolorosas decepções acompanharam passo a passo aqueles valentes soldados de Cristo nas terras nipônicas. E o resultado desse heróico esforço e desse abnegado amor a Jesus Cristo não se fez esperar. Milhares de conversões se deram em menos de meio século.

Mas, em 1597, a História registra a crucifixão de 26 desses convertidos, que se tornaram conhecidos como os mártires de Nagasaki, primícias abençoadas da evangelização do Japão. Vejamos como aconteceu este memorável e trágico fato histórico, glória da Cristandade Nipônica.

Após o Tabor das conversões, começa o Calvário da perseguição

Enquanto progredia a obra da conversão dos gentios, o Império do Sol Nascente encontrava-se em guerra civil. Sua reunificação, iniciada por um senhor feudal chamado Nobunaga, estava em processo de consolidação. Mas, com a súbita morte deste, seu continuador, Hideyoshi, converteu-se posteriormente num verdadeiro déspota, esmagando seus adversários pela força das armas, e reunificando quase totalmente o Império nipônico sob o poder militar.

No início de seu governo, Hideyoshi não perseguiu os católicos. Porém, com o passar do tempo, percebeu que seus vassalos convertidos ao catolicismo — muitos dos quais ocupavam lugar de destaque em seu exército — eram um empecilho para a realização de seus desígnios ditatoriais; e que a lei de Deus era um obstáculo para os seus desmandos morais.

Assim, em 1587, assinou um decreto de expulsão dos missionários, o que não chegou a se consumar devido às medidas de prudência tomadas pelos jesuítas.

Nesse ínterim, começaram a chegar outros missionários vindos das Filipinas, que intensificaram ainda mais a obra de evangelização. Infelizmente o ambiente político estava tremendamente perturbado por intrigas, cobiças comerciais e maquinações dos inimigos da Religião cristã.

O incidente com o galeão San Felipe

Assim, quando tudo pressagiava uma violenta perseguição do Governo imperial contra os católicos, deu-se o lamentável incidente do soçobro do galeão espanhol San Felipe, em Urado, nas costas japonesas.

Após longos vais-e-vens, Hideyoshi mandou prender os franciscanos vindos das Filipinas e confiscar as mercadorias do galeão. Ele assim agiu aproveitando-se das imprudentes ou manipuladas palavras do piloto da nave, o qual teria dito ao seu emissário — após mostrar um mapa das extensões territoriais do rei da Espanha — que nas conquistas espanholas a pregação missionária era o passo inicial que precedia as invasões militares.

Prisioneiros mutilados ocasionavam conversões em seu trajeto

Os missionários franciscanos tinham como centro de irradiação a Igreja Nossa Senhora dos Anjos, em Kyoto, então capital imperial, e estavam sob a chefia de Frei Pedro Batista, que foi preso com outros dois padres: Martín Loynaz de la Ascensión e Francisco Blanco de Galícia. Além desses, foram encarcerados um clérigo franciscano chamado Felipe de Jesús, ou de las Casas, e dois irmãos leigos da mesma ordem: Francisco de San Miguel e Gonçalo Garcia. No grupo dos heróicos confessores da Fé encontravam-se também três meninos de coro (Luís Ibaraki, Antônio e Tomás Kozaki) e mais doze catequistas ou fiéis que estavam a serviço da Missão Franciscana em Kyoto e Osaka.

Foi também aprisionado em Osaka um irmão jesuíta chamado Paulo Miki. De senhorial origem, nascera em 1568, e estudara no Seminário de Azukiyama e no Colégio de Amakusa. Trabalhou com o padre provincial em Nagasaki, e fez intenso apostolado em lugarejos de Omura e Arima. Era um dos melhores pregadores da Companhia de Jesus no Japão. Os catequistas João de Goto e Diogo Kisai foram também presos. Mais tarde, na prisão, para gáudio de suas almas, foram recebidos na Companhia de Jesus.

Em Kyoto, onde os prisioneiros haviam sido concentrados, os algozes cortaram-lhes as orelhas esquerdas, numa praça, ao norte da cidade. Os supliciados, cobertos de sangue, para escárnio das gentes, foram exibidos pelas ruas em pequenas carroças que levavam três ou quatro pessoas. As rudes carroças da ignomínia tornaram-se, ao longo do trajeto, o troféu de glória da Igreja.

Desde Kyoto até Nagasaki, os mártires eram recebidos em triunfo pelos fiéis das aldeias católicas. As demonstrações de amor a eles tributadas eram das mais variadas. Inumeráveis e comoventes conversões se deram ao longo dos caminhos e dos lugarejos por onde passaram.

O pai exorta o filho a ter ânimo na hora do martírio

No dia 8 de janeiro de 1597, Hideyoshi assinou o decreto que condenava à morte todos os prisioneiros. Os motivos da condenação são exclusivamente religiosos. Os cristãos punidos com a pena de morte eram 24, aos quais se juntaram, mais tarde, outros dois que acompanhavam os prisioneiros. Assim, foram 26 os gloriosos mártires de Nagasaki.

Hanzaburo Terazawa, irmão do governador de Nagasaki, recebeu a ordem de Hideyoshi para executar todos os prisioneiros. Ele mandou preparar as cruzes do martírio numa colina perto de Nagasaki.

Na manhã do dia 5 de fevereiro de 1597, Hanzaburo, com receio de cair na desgraça de Hideyoshi, revogou as autorizações que anteriormente dera. Não permitiu a celebração da Missa e nem sequer fosse ministrada aos mártires a Sagrada Eucaristia.

Antes de chegar ao local do suplício, o jesuíta João de Goto viu seu velho pai, também católico, que viera despedir-se do filho. Dirigindo-se a ele, disse-lhe que não havia coisa mais importante que a salvação da alma e recomendou-lhe que não se descuidasse dela. O venerável pai estimulou o filho a ter muito ânimo e fortaleza de alma naquele sublime passo, e exortou-o a morrer alegremente, pois morria a serviço de Deus. Acrescentou que ele, como também sua mãe, estavam dispostos a derramar seu sangue por amor do Senhor, se necessário fosse.

Cristãos japoneses pediam para serem também crucificados

Em seguida os mártires dirigiram-se à colina onde já estavam preparadas as cruzes. Tão grande era o número de fiéis — segundo consta, cerca de quatro mil — que se aglomeravam em torno dos mártires, que os soldados foram obrigados a empurrar os cristãos violentamente, pois muitos deles também queriam ser crucificados. A graça do martírio os tinha tocado profundamente.

Frei Martín entoou então o Cântico de Zacarias, enquanto Frei Gonzalo recitava o Miserere. Outros cantavam o Te Deum.

Os Padres Francisco e Pásio, enviados do provincial de Nagasaki, os exortavam a permanecer firmes na Fé.

Luís Ibaraki gritou com firmeza e alto: “Paraíso, Paraíso, Jesus, Maria.” E assim em um instante todos os presentes gritavam a plenos pulmões: “Jesus, Maria, Jesus, Maria…”

O pequeno Antônio, nesse instante, pediu ao padre Batista que entoasse o “Laudate pueri Dominum” (Louvai, meninos, ao Senhor). Este porém se encontrava em profunda contemplação, e nada respondeu. Antônio, então, iniciou sozinho o Cântico, mas antes de terminá-lo recebeu o golpe das lanças que perfuraram seu peito. O Irmão Paulo Miki continuava a exortar os companheiros do alto da cruz, com divina eloqüência. Sua alma já prelibava o Céu.

O primeiro a consumar o martírio foi Frei Felipe de Jesus. Seu corpo estremeceu ao receber o tremendo golpe de duas lançadas que lhe perfuraram o peito. Seu sangue jorrou forte e copiosamente. A morte foi instantânea. E assim se sucederam os golpes que abriram as portas do Céu aos outros mártires. O último a expirar foi o Padre Francisco Blanco.

À tarde do mesmo dia, o Bispo de Nagasaki e os Padres jesuítas, que não puderam assistir ao martírio devido à proibição de Hansaburo, foram venerar os corpos dos Santos Mártires, cujo sangue foi piedosamente recolhido pela comunidade católica, como preciosa relíquia.

Muitos anos depois, em julho de 1627, o papa Urbano VIII reconheceu oficialmente seu martírio; e em 8 de junho de 1862, o Papa Pio IX os canonizou solenemente.

Sangue dos mártires: penhor de nova cristandade no Japão

A santa colina ficou conhecida como Monte dos mártires, e tornou-se centro de peregrinação dos católicos. Nela inumeráveis outros mártires foram degolados ou queimados vivos, durante a dura, longa e cruel perseguição que se realizou mais tarde, e que exterminou quase totalmente o cristianismo do solo japonês.

Quatrocentos anos já se passaram desde que os 26 mártires foram crucificados. Quatrocentos anos!… Quantas coisas já mudaram, e quantas ainda mudarão!… Deus tem seus desígnios insondáveis sobre as nações.

E como a Fé não mente, “o sangue dos mártires é semente de cristãos”. E assim, das cinzas dessa cristandade ferida brotará um dia uma flor.

Confiemos e rezemos, pois, pelo Japão atual — em meio ao estonteante progresso material — vulnerado até suas mais profundas raízes pela Revolução anticristã que atinge todas as nações. Roguemos a Deus para que o Império do Sol Nascente, que carrega o pesado ônus do paganismo antigo acrescido dos péssimos efeitos do neo-paganismo moderno, receba novamente um surto de graças do Divino Espírito Santo e retome o glorioso caminho outrora iniciado no “Século Cristão Japonês“, rumo ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria.
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Fontes de referência:
* Constantino Bayle, S.J., Un Siglo de Cristiandad en el Japón, Colección Pro Ecclesia et Patria, Editorial Labor, S.A., Barcelona-Madrid-Buenos Aires-Rio de Janeiro, 1935.
* Diego Pacheco, S.J., Martires en Nagasaki — Héroes del Apostolado Católico, Editorial El Siglo de las Misiones, 1961.
* P. De Charlevoix, Histoire du Japon, Tours, Ad. Mame & Cie, Éditeurs, 1842.
* Padre Rohrbacher, Vida dos Santos, vol. III, Editora das Américas, 1959.
* Dr. Herbert H. Gowen, Histoire du Japon — Des origines à nos jours, Payot, Paris, 1933.
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