Santo Antonino, Arcebispo de Florença: exímio combatente do neopaganismo renascentista

Santo Antonino, Arcebispo de Florença: exímio combatente do neopaganismo renascentista
Embora frágil de corpo, tornou-se um dos gigantes da admirável reforma da Ordem Dominicana do século XV e um baluarte contra o espírito e os costumes renascentistas que começavam a minar a civilização cristã medieval

De pequena estatura – daí seu nome, diminutivo de Antonio -, nasceu Antonino em Florença, no ano de 1389, filho único de Nicolau e Tomasina Pierrozi. Viveu na confluência da Idade Média com a Renascença, e soube contrapor a austeridade medieval à busca infrene de prazeres que o neopaganismo renascentista procurava ressuscitar.

Se naqueles primórdios do movimento renascentista tivesse surgido uma verdadeira coorte de Santos que o combatesse como o fez Santo Antonino, por certo a Renascença, com seu espírito naturalista e neopagão, não teria dominado os espíritos e penetrado nos ambientes católicos como ocorreu nos séculos XV e XVI.

Aos 10 anos, costumava Antonino ir todos os dias à igreja de São Miguel, onde rezava aos pés do Crucifixo e diante do altar de Nossa Senhora, em cuja honra recitava sempre o responsório Sancta et Immaculata Virginitas. A Santíssima Virgem concedeu-lhe a excelsa virtude da pureza, que Antonino conservaria até a hora da morte.

Foi nessa mesma igreja que lhe veio, aos 15 anos, o desejo de abraçar o estado religioso na Ordem Dominicana. Era Quaresma do ano de 1404.

A dura prova da vocação

Dirigiu-se então a Frei Giovanni Dominici, Prior do Convento de Fiesole e mais tarde Cardeal-Arcebispo de Ragusa e Legado papal na Hungria. De porte avantajado e eloqüência grave e majestosa, Frei Dominici tornou-se, com Santa Catarina de Siena e São Raimundo de Cápua, o mestre da reforma dominicana. E também de Antonino, que passaria a se considerar seu discípulo e continuador.

Vendo a débil compleição física do postulante e julgando-o sem condições de suportar os rigores da regra, perguntou-lhe Frei Dominici a que matéria era mais afeiçoado.

– “Ao Direito Canônico“, respondeu-lhe Antonino. A fim de melhor perscrutar os desígnios de Deus sobre aquela alma, replicou-lhe então o Prior que depois de aprender de cor todo o Código, voltasse a procurá-lo.

Um ano depois retorna Antonino, com todas as regras e o texto do Direito Canônico aprendidos na ponta da língua.

Vendo nisso um evidente desígnio divino, pois que lhe pedira quase o impossível, decidiu o ilustre dominicano impor-lhe então o hábito branco dos frades pregadores. Era 1405 e Antonino contava apenas 16 anos.

Foi em seguida enviado para o noviciado em Cortona, onde em pouco tempo fez grandes progressos na virtude e no saber, professando os votos ao cabo de um ano. Ali conheceu o célebre Fra Angélico, expoente máximo da pintura sacra medieval.

Na festa de Pentecostes de 1406 retorna Antonino a Florença, acompanhado de três outros professos.

De franzino religioso a baluarte da reforma dominicanaCom o tempo, aperfeiçoou-se nos estudos, tornando-se eminente teólogo. Preocupou-se sobretudo por essa teologia prática e necessária, que se ocupa dos casos de consciência.

Para não participar da nódoa do cisma que então se pronunciara em torno do sólio pontifício, retirou-se de Florença numa noite, juntamente com os religiosos de São Domingos. Pois queria permanecer fiel àquele que seu mestre sem hesitação lhe designara, de acordo com Santa Catarina de Siena, como o verdadeiro Pontífice: Martinho V, cuja eleição poria mais tarde fim ao cisma.

Estabeleceram-se então em Foligno, onde retomaram a vida santa e austera que lhes havia prescrito Frei Giovanni Dominici. Houve no entanto uma devastadora peste, que os obrigou a se refugiar em Cortona. Ali Santo Antonino tornou-se Prior, em 1418, com apenas 29 anos.

A partir de então a reforma dominicana, muito debilitada pelo cisma e pela peste, tomou vigoroso impulso. Santo Antonino – cuja reputação de ciência, prudência e santidade era de todos conhecida – tornou-se a alma desse salutar movimento. No ano seguinte, 1419, faleceu na Checoslováquia o seu querido e inesquecível mestre Giovanni Dominici, Cardeal de Ragusa.

Enquanto permaneceu como Prior, esmerou-se em mostrar a seus subordinados o que deveriam fazer e o que evitar, mais do que pelas palavras, através dos exemplos. Como entendia esse papel, ele mesmo o exprimiu num capítulo essencial de sua Suma Teológica, sob o título Religiosos:

“O primeiro dever é de dar o exemplo. O mestre deve prestar contas a Deus de todos aqueles que lhe são submissos, e merece a morte cada vez que lhes oferece um mau modelo. O Prior tem a obrigação de se inquietar a respeito de cada um de seus religiosos, em particular de tratá-los segundo as suas necessidades. Que ele reprima os agitados, sustente e encoraje os timoratos, os escrupulosos, apóie os doentes; tenha paciência em relação a todos. Que explique e faça observar a regra, zele para que sua autoridade não seja desprezada. Mas o amor deve estar acima do receio, e a virtude que faz com que ele seja amado é a virtude da humildade.”

Superior e amigo do célebre Fra Angélico

Em 1439, já sob o pontificado de Eugênio IV, que sucedera a Martinho V, Santo Antonino tornou-se Prior do Convento de São Marcos em Florença. Ele viu aquela casa religiosa ser magnificamente restaurada, embelezada pela generosidade dos Médicis e pelos incomparáveis trabalhos artísticos de Fra Angélico, além de dotada de excelente biblioteca.

Com o falecimento do Cardeal Bartolomeu Zarabella, vagou-se a importante Arquidiocese de Florença. A população desejava, para substituí-lo, alguém que fosse perfeito nas letras e nos costumes.

Embora houvesse em Florença muitos homens doutos e virtuosos, não foi entretanto fácil encontrar quem reunisse em si aqueles predicados. Tanto é assim que a Arquidiocese permaneceu vaga durante nove meses.

Até que o olhar do Papa Eugênio IV, por sugestão de Fra Angélico, incidiu sobre Antonino, sendo este nomeado Arcebispo de Florença.

O Santo contudo recusou-se obstinadamente a aceitar a nomeação, pensando mesmo em fugir para a Sardenha, até a escolha de outro sucessor. Foi preciso o Papa ameaçá-lo, em nome da santa obediência, sob pena de pecado mortal e até de excomunhão, para que finalmente se resignasse a aceitar o cargo.

Ao fazê-lo, exclamou: “Senhor, aceito este cargo contra a minha vontade, para não resistir àquela de vosso Vigário. Assisti-me, pois, Senhor, porquanto sabeis que necessito.”

Partiu de Fiesole pela manhã, indo celebrar a Santa Missa numa igreja de São Gallo, próximo de Florença. Ali foram o Clero e o povo recebê-lo com grande aparato, enquanto os sinos repicavam. Toda a cidade se rejubilava pelo fato de possuir tão digno e santo Pastor. Era o dia 13 de março de 1446. Antonino tinha 56 anos e haveria de dirigir a Arquidiocese durante 13 anos.

Arcebispo – antítese do espírito renascentista

Os hábitos do Santo em nada se modificaram após ascender a tão alto e cobiçado cargo, pois tanto a sua vida privada como a do Palácio Arquiepiscopal ele fez cercar da antiga austeridade medieval. Pelo exemplo, lutou o novo Arcebispo contra a sede insaciável de prazeres que o espírito renascentista de então suscitava intensamente nas almas. Além do exemplo, sua vigorosa atuação anti-renascentista manifestou-se igualmente eficaz.

Era auxiliado por apenas seis pessoas, que ele fazia questão de dotar com bons proventos, impedindo assim que pudessem ser objeto de suborno da parte de quantos buscavam os préstimos da Arquidiocese.

Tomava conhecimento de todas as causas que deviam ser julgadas em seu tribunal. Todos se sentiam tão bem com os julgamentos, opiniões e conselhos do Santo, que antes mesmo de ser nomeado Arcebispo já era conhecido como Antonino dos Conselhos.

Sua humildade tornava-o duro e intransigente para consigo mesmo, enquanto sua mansidão fazia-o magnânimo, paciente e afável para com os outros. Muito solicitado por visitantes, recebia todos, não se conhecendo Prelado de acesso mais fácil: ouvia as queixas, mesmo as mais longas, com uma paciência infatigável, respondendo com uma doçura que nada desarmava. Ele resolveu o difícil problema de não separar a doçura da severidade indispensável a um chefe. Seu único desejo era de fazer voltar os culpados à emenda.

Apesar das inúmeras obrigações impostas pelo seu múnus episcopal, jamais perdia a solidão, a paz e a serenidade de coração, estando continuamente voltado à contemplação das coisas de Deus.

Era tal a justiça de seus julgamentos, que o Papa proibiu de se recorrer das sentenças que ele ditava.

O Santo soube muito bem utilizar-se deste favor em benefício da Igreja, livrando sua Arquidiocese das práticas ímpias, imorais e funestas da magia; da chaga da usura; dos charlatães e dos comediantes. Todas essas nódoas já eram conseqüência do espírito renascentista, que então se expandia por todas as classes e ambientes da Cristandade.

Inventara-se um jogo através do qual a juventude florentina perdia diariamente grossas somas de dinheiro, com grande prejuízo para as famílias. Inicialmente o Santo proibiu esse jogo, sob pena de excomunhão. Em seguida, passou a ir aos lugares onde se jogava, expulsando os que ali encontrava, virando as mesas, os dados, o dinheiro e as apostas. Seu zelo livrou as igrejas da presença de pessoas insolentes, que profanavam a santidade do local com conversas sacrílegas.

Não temeu sequer opor-se aos magistrados e ao braço secular, quando, abusando de seu poder, violavam os direitos e as imunidades da Igreja. Reprimiu as suas violências com censuras eclesiásticas, sem se importar com as ameaças que lhe eram feitas.

Certo dia, alguém ameaçou atirá-lo pela janela e privá-lo do Arcebispado, ao que o Santo, calmamente, respondeu dizendo que não se julgava digno do martírio e sempre desejara ser destituído do Episcopado…

Para a reforma do Clero, quis controlar tudo pessoalmente. Visitou uma a uma todas as igrejas, não somente de sua Arquidiocese, mas ainda dos Bispados sufragâneos de Fiesole e Pistoia. Chegando de improviso, exigia que se lhe prestassem contas.

Muitas das obras de Santo Antonino foram escritas para responder a consultas. O objetivo de sua Suma Teológica – o primeiro livro a apresentar em plano tão amplo o estudo da teologia moral – foi de fornecer matéria aos pregadores, um guia aos confessores e uma regra de vida aos fiéis, segundo as exigências de sua situação. É sobretudo a moral cristã, em suas aplicações práticas, que constitui o tema de sua obra visando a reforma interior do homem.

Deus concedeu a Santo Antonino uma graça insigne, um contraforte harmônico de sua austeridade reformadora: o dom dos milagres.

Um nobre de Florença tinha um filho muito doente, que acabou falecendo. O pai chorou muito essa morte e se dirigiu a Santo Antonino, pedindo-lhe que o ressuscitasse. Diante de tão árduo pedido, e movido pela compaixão, o Santo pôs-se em oração. Ao terminar, consolou o pai, dizendo-lhe que não chorasse mais, porque chegando em casa encontraria o filho vivo, o que de fato aconteceu.

Previsão da própria morte

No mês de abril de 1459 seu estado se agravou, sendo conduzido à casa de campo de San’Antonio-del-Vescovo. Tentou-se encorajá-lo, como se faz com os doentes, falando-lhe de sua convalescença. Ele respondeu apenas: Fiat voluntas tua, lembrando que havia completado os 70 anos do Salmista.

No dia 30 ele fez seu testamento, de comovedora simplicidade. Pediu então para ser enterrado no coro da igreja de São Marcos de Florença.

Em 1º de maio recebeu a extrema-unção, enquanto os dominicanos cercavam seu leito recitando o ofício das Matinas. Pronunciou algumas palavras imperfeitas ou mal formadas, entre as quais se entenderam estas: “Servir a Deus é reinar”, além de repetir várias vezes o responsório de Nossa Senhora Sancta et immaculata virginitas.

Na madrugada de 2 de maio, vigília da Ascensão, Antonino entregou sua alma virginal a Deus, após uma longa agonia.

Seu corpo foi velado durante oito dias, exalando um agradável odor. O Papa Pio II, que se encontrava em Florença, concedeu sete anos de indulgência a todos que visitassem o Santo e lhe osculassem os pés. Á vista dos vários milagres operados em sua sepultura, o Papa Adriano VI assinou o decreto de sua canonização em 1523.
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Fontes de referência
1) Les Petits Bollandistes, Vie des Saints, Bar-le-Duc, Typographie des Célestins, Ancienne Maison L. Guérin, 1874, t. V, p. 436 a 440.
2) Pe. Diogo do Rosário, Flos Sanctorum, Tipografia Universal, Lisboa, 1870, t. V, p. 128 a 139.
3) Vie des Saints, par les RR. PP. Bénédictins de Paris, Librairie Letouzey et Ané, 1946, vol. V, p. 200 a 206.
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