São Jorge: modelo do guerreiro cristão

São Jorge: modelo do guerreiro cristão
Patrono da Cavalaria e dos guerreiros cristãos, o destemido mártir tornou-se um dos santos mais populares da História da Igreja
A forma popular pela qual é representado São Jorge, isto é, matando um dragão, não encontra fundamento real em sua vida. Os gregos começaram a representá-lo assim, de maneira alegórica. O dragão simboliza a idolatria que ele enfrentou com a s armas da Fé, e a donzela que o Santo defende representa a província da qual ele extirpou as heresias.

A ata laudatória dos feitos dos mártires (Passio), que narra a vida de São Jorge, é bem antiga e contém elementos legendários. Segundo sua primeira redação, Jorge era originário da Capadócia (região da atual Turquia), tendo vivido durante o século III na Palestina, onde era tribuno militar.

Na referida Passio consta uma narração da vida do Santo, atribuída a um certo Pasicrate, seu contemporâneo e testemunha ocular de seus feitos.

Conduzido diante do Imperador romano Diocleciano, foi instado a queimar incenso aos ídolos. Tendo-se recusado energicamente a isso, foi torturado e recolhido a um cárcere. Foi constrangido nessa prisão a passar a noite com uma pesada pedra sobre o ventre. Foi favorecido ali com uma visão, em que Deus lhe anunciou uma longa série de torturas, que durariam sete anos. No decurso desse período, seria morto e ressuscitaria três vezes.

Jorge sofreu terríveis martírios, dos quais saiu ileso. Por fim, foi decapitado.

Em torno desse núcleo de fatos relatados na Passio originária, constituiu-se uma rica legenda, na qual figuram declarações e atitudes do glorioso mártir em face de seus perseguidores. Passamos a relatar algumas dessas tradições, pois elas revelam como a devoção dos fiéis, através dos séculos, foi modelando a figura magnífica de um dos santos mais populares da hagiografia, tanto da Igreja do Oriente quanto do Ocidente.

São Jorge, cuja festa litúrgica comemora-se a 23 de abril, era ainda criança quando perdeu seu pai, oficial do exército imperial, morto em combate. Sua mãe levou-o então para a Palestina, de onde era originária, e onde possuía muitos bens, educando-o com todo o esmero requerido pela sua condição.

Ao atingir a adolescência, Jorge entrou para a carreira das armas, por ser a que mais satisfazia à sua natural índole combativa. Em pouco tempo sua personalidade, sua coragem, seu porte, foram notados pelo Imperador Diocleciano (284-305), que o nomeou mestre de campo.

Ignorando ser aquele bravo um cristão, o Imperador romano pensava elevá-lo rapidamente aos primeiros cargos do exército, atraído pelas suas qualidades invulgares.

Testemunho público da Fé católica

Diocleciano era, entretanto, pagão e inimigo ferrenho dos cristãos, e de há muito pretendia extinguir o número crescente deles em seu Império. Com esse intuito convocou o Senado em Nicomédia, fazendo com que dele também participassem representantes seus do Oriente e alguns oficiais de seu exército, figurando entre estes São Jorge.

O corajoso oficial sentiu que a hora tanto desejada de dar testemunho público de sua Fé e derramar o sangue por Nosso Senhor Jesus Cristo chegara. Preparou-se para ela, com orações e penitências, como um soldado que se arma para o combate mais decisivo de sua vida. Herdeiro de rico patrimônio pela morte de sua mãe, vendeu tudo o que tinha, distribuindo o dinheiro obtido como esmolas, e também entre seus escravos, aos quais concedeu liberdade.

Assim despojado de tudo, dirigiu-se para a arena do combate: a sala onde estava reunida a assembléia senatorial.

Diocleciano apresentou durante a reunião seu plano ímpio e cruel de extermínio dos cristãos, sendo aplaudido por todos. No meio dos aplausos, uma voz levanta-se, jovem, vigorosa, resoluta, pedindo a palavra. Surpresos e admirados, todos voltaram-se para o ilustre oficial, que com desembaraço e galhardia dirigiu-se à tribuna, de onde exclamou ardorosamente:

— “Imperador, e vós, senadores, até quando voltareis vosso cego furor contra os cristãos? Habituados a elaborar as leis que dirigem os povos, dareis um tal exemplo de injustiça, fazendo-as tão iníquas contra inocentes? Forçá-los-eis a seguir uma religião da qual vós mesmos duvidais?”

Estas palavras contundentes deixaram atônita a assembléia. O Imperador, mais espantado e contrafeito do que os outros, ordenou ao Cônsul Magnêncio que respondesse ao Santo:

— “Quem te deu tal ousadia — disse Magnêncio — para te dirigires assim ao nosso Imperador, augusto defensor dos deuses do Império?”
— “A verdade”, respondeu o Santo.
— “O que é a verdade?”
— “É Jesus Cristo, meu Senhor, a quem perseguis”.
— “Então és cristão?”
— “Eu o sou, e é apoiado em Nosso Senhor Jesus Cristo que não temo entrar em vosso meio para dar testemunho da verdade”.

A estas palavras — à semelhança do que ocorrera séculos antes no Sinédrio, quando Nosso Senhor afirmou sua divindade — um tumulto estabeleceu-se no recinto do Senado, onde muitos, em altos brados, exigiam a morte do Santo.

Coragem e fortaleza nos suplícios

Diocleciano, reconhecendo no intrépido militar a mesma têmpera na qual depositara tantas esperanças e cumulara de favores, tinha também conhecimento de que o Santo era estimado, de maneira especial no exército, devido ao grande valor que demonstrara com tão pouca idade. Em vista disso, temeu que seu exemplo arrastasse outros a segui-lo. Dissimulando então sua ira, tentou convencer São Jorge com promessas e ameaças, para que sacrificasse aos deuses.

O Santo não se deixou seduzir pelas palavras do Imperador. Pelo contrário, incitou-o a abandonar seus ídolos e a cultuar o Deus verdadeiro. Jorge acrescentou ainda que os deuses do Imperador eram demônios habitando matéria vil, os quais ele não temia.

Enfurecido, Diocleciano ordenou que conduzissem o jovem oficial para a prisão e o torturassem até que mudasse de opinião. Durante toda a noite o Santo foi torturado com requintes de crueldade.

No dia seguinte, o Imperador mandou que o levassem à sua presença. Vendo-o tão desfigurado e tão débil, procurou convencê-lo a sacrificar aos ídolos. Tomado de indignação, São Jorge exclamou:

— “Imperador, não sou tão tíbio que, em virtude de uns tormentos infantis, repudie ao Senhor da vida e da morte”.

— “Eu saberei encontrar suplícios de crianças que te arranquem a vida”, redargüiu Diocleciano, dando ordens para que o herói cristão voltasse à prisão.

Na manhã seguinte, mandou atar o resoluto combatente em uma roda toda coberta de pontas de aço, com correias tão apertadas que penetravam na carne.

Essa roda foi suspensa ao ar, e debaixo dela foram colocadas pranchas eriçadas de ferros pontiagudos. A cada volta que a roda dava, o corpo do Santo ia sendo dilacerado ao passar pelas pranchas, pois os ferros penetravam em sua carne, arrancando-lhe pedaços.

“Não temas, Jorge, estou contigo”

Quando Jorge não deu mais sinais de vida, o Imperador, satisfeito, mandou que o deixassem caído ao solo, no meio do próprio sangue, e que fossem todos render graças aos deuses por essa vitória.

Mal Diocleciano se afastou, formou-se no céu, sobre o corpo do mártir, uma enorme e brilhante nuvem, que desprendia raios e ribombos terríveis. A maioria dos que permaneceram no local do suplício ouviu sair de dentro da nuvem uma voz que dizia: “Não temas, Jorge, estou contigo”. No mesmo instante o Santo levantou-se, completamente são. Os soldados, surpresos e assustados, correram para o templo, a fim de comunicar ao Imperador o sucedido. São Jorge foi então levado à sua presença.

O ímpio Diocleciano não quis acreditar no que via: “Não é Jorge — disse ele — é alguém que se lhe parece, ou um fantasma”.

Entre os presentes estavam dois membros do Conselho Imperial, Anatólio e Protoleão, que já tinham certa noção da doutrina cristã. Ao verem o milagre, não se contiveram, exclamando: “O Deus dos cristãos é o único e verdadeiro Deus”. O Imperador mandou que os prendessem imediatamente e que, sem o menor julgamento, fossem degolados fora da cidade. A festa destes dois mártires comemora-se juntamente com a de São Jorge. Muitas outras conversões ocorreram diante da evidência do milagre.

Terror dos demônios

Ao ver tantas conversões, Diocleciano, em desespero de causa, quis a todo custo que São Jorge sacrificasse aos deuses. Redobrou as promessas, suplicou, ameaçou. O Santo pediu então ao Imperador que lhe mostrasse os ídolos que ele tanto prezava. Satisfeito, Diocleciano conduziu o Santo para o interior do templo, diante de uma estátua de Apolo. Logo ao aproximar-se dela, Jorge interpelou-a com voz enérgica:

— “Diga-me: és Deus?”
— “Não”, respondeu a estátua com voz horrível.
— “Espíritos malignos, anjos rebeldes, condenados pelo verdadeiro Deus ao fogo eterno, como tendes o atrevimento de estar em minha presença, sendo eu servo de Jesus Cristo?”

E dizendo isso, fez o sinal da Cruz. No mesmo instante as estátuas caíram de seus pedestais, espatifando-se no chão, entre os gritos dos sacerdotes e da multidão que lotava o templo, tomados de pânico. Os sacerdotes, então, excitaram o povo à sedição, suplicando ao Imperador que os livrasse, o quanto antes, daquele terrível mago. Diocleciano mandou que levassem Jorge para fora da cidade e o degolassem imediatamente.

De acordo com a Passio, porém, antes de ser executado, o corajoso oficial foi submetido a uma série de tormentos, durante anos. Duas vezes ainda seria morto, retornando à vida. Finalmente, foi degolado.

Glorificação póstuma

Segundo a tradição, servos de São Jorge levaram seu corpo para Dióspolis, onde, alguns anos depois, em virtude da liberdade da Igreja concedida em 313 por Constantino, pelo edito de Milão, foi edificado um santuário em sua honra.

Seu culto espalhou-se imediatamente por todo o Oriente. Só no Egito construíram-se quatro igrejas e quarenta conventos dedicados ao mártir, nos primeiros séculos após sua morte.

Não se sabe como se originou seu culto no Ocidente. Já no século V, nas Gálias, o rei Clóvis dedicou-lhe um mosteiro, e sua esposa, Santa Clotilde, erigiu várias igrejas e conventos em sua honra.

Celeste cruzado

A devoção a São Jorge como o patrono da Cavalaria, durante a Idade Média, foi propagada pelos cruzados, por ter São Jorge aparecido inúmeras vezes ao lado dos soldados da Cruz, durante as batalhas.

Estando os cruzados a caminho de Jerusalém, e passando por Lydda (antiga Dióspolis — onde o Santo foi sepultado), durante a primeira cruzada empreendida em 1096, lá deixaram um Bispo e padres para rezarem, no altar do Santo mártir, segundo a intenção de que eles conquistassem a Cidade Santa. E, por ocasião do cerco desta, estando a batalha praticamente perdida para os cristãos, São Jorge apareceu a cavalo no Monte das Oliveiras. A visão celeste agitava um escudo e fazia um sinal, incitando os cristãos a entrarem na cidade, o que os levou à vitória.

A Inglaterra foi o país ocidental onde, na Idade Média, a devoção ao Santo teve papel mais saliente. O monarca Eduardo III colocou sob a proteção de São Jorge a Ordem de Cavalaria da Jarreteira, fundada por ele em 1330.
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Fontes de referência:
1. Abbé Profilet, Les Saints Militaires, Rétaux-Bray, Paris, 1890.
2. D. Guéranger, El Año Liturgico, Ediciones Aldecoa, Burgos, 1956.
3. J. F. Michaud, História das Cruzadas, Editora das Américas, São Paulo, 1956.
4. Enciclopedia Cattolica, Città del Vaticano, Vol.VI, 1951.
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