Santo Antonio Maria Zaccaria, fundador e zeloso apóstolo


Santo Antonio Maria Zaccaria, fundador e zeloso apóstolo
Tendo falecido ainda jovem, esse santo extraordinário fundou os Barnabitas e as Angélicas, sendo também, como Santo Antonino de Florença no século anterior, destemido adversário do paganismo renascentista

Por A. Hofer

Antonio Maria Zaccaria viu a luz em 1502, na cidade de Cremona, ao norte da Itália. Seu pai, Lázaro, pertencia à nobre família dos Zaccaria, cuja fama em Gênova era ainda maior do que em Cremona.

Antonio Maria teve por mãe a virtuosa Antonieta Pescaroli, viúva aos 18 anos, poucos meses depois do nascimento de seu único filho.

Surgiu este enviado de Deus qual “lírio em meio a um monturo de corrupção“, pois a Europa – e particularmente a Itália – achava-se atolada na crise moral provocada pela revolução renascentista.

A Antonio Maria Zaccaria incumbiria – como a outros santos suscitados por Deus para combater aqueles males – opor diques ao avanço da Revolução e restabelecer os princípios religiosos e morais que vigoravam na Cristandade medieval.

Vigilância em face da corrupção renascentista

Após uma infância marcada por profunda piedade junto de sua mãe, que recusou novo casamento para se dedicar à educação do filho, Antonio Maria, então com 15 anos, partiu para Pavia, a fim de estudar Filosofia.

Ali permaneceu durante três anos. Sua passagem por essa cidade coincidiu com a revolta do monge apóstata Martinho Lutero, na vizinha Alemanha, que em 31 de outubro de 1517 mandou afixar na porta do castelo de Wittenberg suas 95 teses contra as indulgências.

Em 1520, então com 18 anos, Antonio Maria dirigiu-se a Pádua, a fim de estudar Medicina. Naquele mesmo ano, no dia 10 de dezembro, Lutero mandou queimar a Bula de excomunhão papal, dando início à cisão com Roma e à guerra religiosa.

Todos os centros de estudos ficaram – ora mais, ora menos – abalados pelo acontecimento. No Norte da Itália, devido à presença dos alemães que para lá acorrem, rumo à Universidade de Pádua, havia um acentuado ambiente de antagonismo entre italianos e alemães. Na mente do italiano, o alemão é o dominador execrado, enquanto para este, o italiano é um povo mole, leviano e voluptuoso.

Foi esse ambiente que Antonio Maria encontrou naquela Universidade, tornando-se imperioso tomar as devidas cautelas a fim de enfrentar com êxito os perigos daí decorrentes.

Mas almas assim são de molde a despertar outras que também se sentiam isoladas, por não pactuarem com o ambiente de impiedade e degradação reinantes. Foi o que sucedeu com Serafim Aceti, cuja amizade com Antonio Maria perdurou mesmo depois de concluído o curso, tornando-se pregador de fama, autor reputado de obras ascéticas e cônego regular de Latrão.

Discípulo de São Lucas e zelo apostólico de São Paulo

Terminado o curso de medicina em 1524, Antonio Maria voltou a Cremona.

Como médico debruçou-se sobre a dor e a miséria alheias, para curá-las e confortá-las. Mas não se limitou a tratar os males do corpo. Seu zelo não conheceu limites em fazer bem às almas, afastando-as do erro e conduzindo-as a Jesus Cristo e à Sua Igreja.

Estava cônscio de que, segundo São Paulo, “a caridade nunca há de acabar; mas as profecias passarão, as línguas cessarão e a ciência será abolida” (1 Coríntios, 13, 8). Vendo assim que a medicina não lhe abria à generosidade senão um campo superficial, Antonio Maria voltou-se inteiramente para a medicina das almas.

Confiou-se então a um douto dominicano de Cremona, Pe. Marcelo, abandonando praticamente a medicina pela História Sagrada, pela Teologia e – como se lê no dia de sua festa, 5 de julho – “pela ciência super-eminente de Jesus Cristo“.

Sentia-se entretanto indigno de ser do número daqueles que possuíam o invulgar privilégio de transformar o pão e o vinho em Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por essa razão pedia muito a Deus que lhe iluminasse os passos quanto à vocação a seguir.

Agradavam-lhe as harmonias espirituais de São Tomás de Aquino, para quem “a atividade do ministério deve sair da plenitude da contemplação“; deleitava-se com as belas formulações de São Boaventura; mas o modelo de zelo apostólico que mais o entusiasmava era o de São Paulo, com quem repetia: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a força, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Jesus Cristo Nosso Senhor” (Rom. 8, 38-39).

Começou seu apostolado na pequena igreja de São Vidal, vizinha de sua casa, reunindo crianças, pobres e ricas, interpretando-lhes a palavra sagrada: “Venite filii…”

Eram leituras curtas, conferências sobre a doutrina cristã, homilias compostas cuidadosamente em cadernos escolares, eivadas de princípios morais, em contraposição à mentalidade laxista e pagã da Renascença.

Além das crianças, começaram a acorrer também os moços, as mães, as irmãs, os parentes e os amigos, para ouvir “o anjo de Deus“.

Apostolado sacerdotal afronta espírito renascentista

Tornando-se aquele ambiente pequeno para conter os seus ouvintes, e grandes os males e os escândalos que grassavam nas ruas, decidiu ir até elas para, com o crucifixo na mão, o desassombro de um guerreiro e a dignidade de um fidalgo, exprobar os transeuntes de seus pecados e incitá-los à emenda através da pregação dos sofrimentos do Redentor.

A conselho do Pe. Marcelo, tomou o hábito eclesiástico e recebeu as ordens menores. Julgando-se entretanto indigno, não prosseguiu. Nesse ínterim morre o Pe. Marcelo, sendo substituído pelo Pe. Batista da Crema, também dominicano e que haveria de desempenhar importante papel na vida de Antonio Maria, como desempenhara na de outro Santo, Caetano de Thienne, fundador dos Teatinos.

Foi ele que convenceu Antonio Maria a ordenar-se, o que foi feito em 1528, quando tinha 26 anos de idade.

Na primeira Missa, à hora da Consagração, uma luz não acesa na Terra transfigurou o altar como um Tabor. E segundo tradição ininterrupta, o oficiante foi cercado por um grupo visível de espíritos celestes, curvados ao seu lado na mesma adoração, até o momento em que as sagradas espécies foram consumidas.

Penitente convertida do Pe. Batista da Crema, a Condessa Torelli, de Guastalla, duas vezes viúva aos 25 anos e sem filhos, tornou-se o principal apoio do Pe. Antonio Maria.

Instada pelo Pe. da Crema, a Condessa deu todo o apoio necessário ao Pe. Antonio Maria, não somente em Guastalla, como ainda em Milão, onde ela havia comprado uma casa para levar vida religiosa juntamente com um grupo de moças e senhoras.

Numa época em que tudo se queria reformar, havia uma verdadeira e uma pseudo-reforma. Emblemática desta última foi o protestantismo e a própria Renascença, tão enaltecida pelos compêndios de História.

Santo Antonio Maria Zaccaria foi um dos pilares da verdadeira Reforma que se opôs ao paganismo renascentista e à pseudo-reforma protestante.

Em Milão, suscitados dois primeiros discípulos

Em 1530 Antonio Maria dirigiu-se a Milão. Pretendia obter, através de métodos próprios, resultados análogos aos que, em maio de 1524, por inspiração do mesmo Pe. da Crema, Caetano de Thienne obtivera com a fundação da Ordem dos Teatinos (que levava o espírito de pobreza e de confiança na Providência ao extremo de nada pedirem enquanto não lhes fosse dado).

Com a diocese vacante há mais de 50 anos, a paz naquela cidade era mais aparente que real, tornando-se foco permanente de irradiação das novas idéias revolucionárias.

Para contrapor-se a essa difícil situação, suscitara ali a Providência, desde os primórdios do século XVI, a Sociedade da Sapiência Eterna, cujas reuniões se realizavam na igreja dos Agostinianos de Santa Marta. Entre seus sócios figuravam João Angelo Medici e Miguel Ghislieri (futuros Pio IV e São Pio V), tendo sido honrada com a benevolência de Luiz XII e Francisco I, e com o patrocínio dos Papas.

Apenas chegado a Milão, Antonio Maria é apresentado a Sapiência Eterna por Dom Laudini, verdadeiro chefe da Diocese. Embora quase desconhecido, conquistou grande simpatia, entusiasmando os presentes com suas palavras.

Entre eles encontravam-se dois cavalheiros ligados por laços de parentesco, amizade e aspirações de perfeição. Chamavam-se Tiago Antonio Morígia e Bartolomeu Ferrari. Ambos provinham de famílias ilustres e se desdobraram em zelo e caridade por ocasião da peste de 1524, que transformou Milão numa hedionda cidade de esqueletos, moribundos e cadáveres.

Surgem os Clérigos Regulares de São Paulo – os Barnabitas

Segundo alguns, Tiago e Bartolomeu já haviam excogitado a idéia de formar uma sociedade de sacerdotes dedicada à reforma do Clero e do povo. Entretanto, tal idéia só se cristalizou por ocasião do encontro com Antonio Maria em 1530, que marcou o início da Congregação dos Clérigos Regulares de São Paulo, conhecidos comumente por Barnabitas, pelo fato de se reunirem na igreja de São Barnabé.

Para a elaboração das regras da nova Ordem, contou Zaccaria com a assídua e preciosa colaboração do Pe. Batista da Crema, que viria a falecer quatro anos depois. E também com a inestimável ajuda da Condessa Torelli, na aquisição de imóveis em Milão.

Aprovação pontifícia para os Barnabitas e as Angélicas

Com o fogo do Apóstolo, continuava Zaccaria a incentivar sua pequena comunidade, à qual se incorporam vários milaneses da melhor sociedade.

Em abril de 1532 Bartolomeu Ferrari é ordenado sacerdote. E no dia 4 de julho do ano seguinte, Tiago Morígia, que se tornou, por desejo do Santo, o primeiro superior da Ordem, conservando-se seis anos no cargo. Entretanto, enquanto o fundador viveu, Morígia continuou a deferir a Zaccaria toda a honra da direção, sempre decidindo segundo o aviltre dele.

Finalmente, em 18 de fevereiro de 1533, o Papa Clemente VII, devido à boa fama da Obra e às informações recebidas, aprovou os Clérigos Regulares, os quais, com a Bula de Paulo III de 24 de julho de 1535, passaram a denominar-se Clérigos Regulares de São Paulo. Até a visita apostólica de 1551, eram conhecidos como Clérigos Regulares de São Paulo Decapitado, enquanto as Angélicas, suas irmãs em religião, se reuniram sob o apelativo de São Paulo Convertido.

Elas foram ousadamente estabelecidas pela Condessa Torelli, sob assistência de nosso Santo, em 24 casas da freguesia de Santa Eufêmia, outrora ocupadas com antros de prostituição. Esse lugar de infâmia seria doravante habitado por numerosas virgens consagradas, realizando assim antiga profecia de um bem-aventurado franciscano, que após ter chorado sobre esse bairro de perdição, proclamou que o mesmo seria transformado em “deliciosa moradia dos anjos“. Ali, no ano de 1535, terminou-se de erigir um mosteiro cuja igreja é dedicada à conversão de São Paulo.

Devoção eucarística das 40 Horas

Para a regeneração de uma sociedade que havia voltado as costas a Deus, não bastavam as orações, as admoestações, os jejuns e as penitências; era mister reintroduzir o Divino Mestre ofendido para ser alvo da adoração a que tem direito da parte de seus súditos.

Em Milão, João Bellot instituíra uma adoração de quarenta horas, para aplacar a cólera divina em face do sacrílego assalto que em 1527, à frente de 20 mil luteranos, o Condestável de Bourbon fizera a Roma, seguido de saques, orgias e profanações que se prolongaram por seis meses.

Essa adoração, porém, feita para recordar as quarenta horas em que Nosso Senhor permaneceu no sepulcro, realizava-se somente quatro vezes por ano, conservando o caráter de exercício particular ao pé do altar, de cujo sacrário o Santíssimo não saía.

Zaccaria a quis solene e perpétua, valendo-se para isso dos bons préstimos do Duque Francisco Maria Sforza. Este, cujo casamento se realizara em maio de 1534 na Catedral de Milão, magnificamente engalanada para o ato, pediu que a catedral estivesse revestido da mesma pompa para o dia 11 de junho, quando se celebraria a festividade de Corpus Christi. Assim se deu, tendo o Santíssimo sido regiamente exposto à vista de todos. A partir de então, a cerimônia se espalhou por todo o orbe.

Em face de grandes provações: fortaleza heróica

Como não poderia deixar de ser, o inimigo de nossa salvação tudo faria para armar ciladas contra esse filho da Virgem.

Uma delas sobreveio em 1532, através de um religioso carmelita, que em suas pregações não poupava ameaças aos Clérigos Regulares de São Paulo, tachando-os de doidos, fanáticos, hipócritas etc. Tais ameaças culminaram com uma tríplice denúncia ao Arcebispado de Milão, ao tribunal da Inquisição e ao Senado.

Confiante na assistência do Céu, Zaccaria enfrentou com determinação a tormenta, começando por levantar, a exemplo do Divino Mestre, o ânimo de seus discípulos atemorizados.

Iniciado o processo, ouvido o caluniador, prescritos os inquéritos, citadas as testemunhas, os juízes só tiveram diante de si a evidência de uma iníqua maquinação. A tal ponto que mais tarde exclamaria o presidente do Senado, Tiago Felipe Sacco citando o Livro da Sabedoria: “Insensatos que éramos! A vida desses homens nos parecia loucura, e seu fim vergonhoso, e contudo ei-los de partilha com os santos!” (Sab 5, 4-5).

Após a tormenta, vitória das duas congregações

De tal modo os juízes se afeiçoaram aos Clérigos de São Paulo, cuja vida por dever de ofício foram obrigados a conhecer, que um dia Crivelli, do tribunal da Inquisição, interrogado pelo Papa Paulo III, respondeu-lhe que a cada um dos padres aplicavam-se as palavras de Deus a respeito de Jó: “Vir simplex et rectus“. O próprio caluniador, antes de morrer, fez honrosa retratação entre os braços de Zaccaria.

Não podendo atacar novamente a reputação do Santo e sua obra, o ódio do adversário dirigiu-se desta feita contra a Condessa Torelli e seu Instituto. Para isso valeu-se do concurso da camarilha de parentes da rica e abnegada viúva, cuja herança viam ameaçada pela sua liberalidade.

Após numerosas idas e vindas, e a intervenção inclusive do Sumo Pontífice, no dia 21 de agosto de 1537 foi dada a sentença, não apenas com a absolvição das pessoas incriminadas, mas com uma homenagem oficial a elas. Tão logo tomou conhecimento do resultado, Paulo III publicou um Breve ampliando o privilégio das Angélicas, autorizando-as a penetrar em todos os conventos de Milão.

Combatente ainda jovem do bom combate

A exigüidade de espaço não nos permite ir além na apreciação da vida do heróico Antonio Maria Zaccaria.

Ainda jovem, na idade de 36 anos, vergado pelo peso da luta, tomba exausto em Guastalla. Acama-se e o mal se agrava. Impossibilitado de ir expirar no meio de seus companheiros, pede para ser conduzido junto à mãe em Cremona. Ao vê-la chorar, profetiza: “Ah, mãezinha, deixai de chorar! Breve, gozareis comigo daquela glória eterna em que, desde já, espero entrar“. E declara que falecerá no dia da oitava dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo.

Após ter cedido um pouco, o mal se agrava. Vindos de Guastalla, estão à sua cabeceira Ferrari e Cacciaguerra; e procedentes de Milão, o Pe. Soresina e Serafim Aceti, cuja amizade ele granjeara em Pádua. Rezam e choram, enquanto Zaccaria, com voz serena, lhes transmite ternas e graves recomendações.

Após oferecer-se como vítima expiatória e receber o viático, este seguidor do “combatente do bom combate” – o Apóstolo dos Gentios – entregou sua alma a Deus, assistido, segundo a tradição, pelo próprio São Paulo. Era sábado, dia 5 de julho de 1539, quando começavam nas igrejas as vésperas da oitava dos Apóstolos Pedro e Paulo.

A causa de beatificação de Antonio Maria foi introduzida em 1806, no pontificado de Pio VI, e a heroicidade de suas virtudes proclamada em 1849, sob Pio IX; Leão XIII canonizou-o em 27 de maio de 1897.
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Fontes:
1) Guy Chastel, Santo Antonio Maria Zaccaria, Editora Vozes Ltda., Petrópolis, 1943.
2) Pères Bénédictins de Paris, Vies des Saints et des bienheureux, Librairie Letouzey et Ané, Paris, 1949.
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