Santo Odon, Abade de Cluny, restaurador e consolidador dos fundamentos da Idade Média

Santo Odon

Santo Odon, Abade de Cluny, restaurador e consolidador dos fundamentos da Idade Média

Nos séculos VIII e IX, a Europa passou por uma profunda crise religiosa e social, ocasionada, em grande parte, pelas invasões dos vikings que, devastando cidades e queimando igrejas, abalaram as estruturas políticas, sociais e econômicas então existentes.
A par disso, mosteiros e abadias, antes refúgio da piedade, arte e cultura, estavam em decadência, devido a abusos de membros do alto Clero e da nobreza, os quais apoderavam-se de bens e rendimentos eclesiásticos.

Ademais, alguns nobres nomeavam abades, os quais muitas vezes eram leigos, seus apaniguados. “Os monges, se os havia, estavam reduzidos a um canto, deixados à sua própria sorte, sem franca liberdade e sem verdadeira obediência, reduzidos a vegetar”(1). O relaxamento chegou a tal ponto que levou o Papa João XI a exclamar: “Já não há, por assim dizer, um só mosteiro em que a regra seja observada!”

A situação, infelizmente, não era melhor na Sé de Pedro, Cátedra da Verdade e luz dos povos. Atravessava esta uma terrível noite escura, sucedendo-se os Papas em períodos de pouco mais de dois anos, vítimas que eram do veneno assassino ou de trágicos acidentes naturais. Só entre 822 e 894, 32 Pontífices passaram pelo Trono de São Pedro! (2).

Para reverter essa situação, era necessário uma série de Santos suscitados pela Providência divina, os quais por sua ação reformassem a ordem espiritual para que esta permeasse, em toda a ordem temporal e no âmago da vida dos povos, a seiva do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Um deles, e sob certo aspecto talvez o mais providencial, foi Santo Odon (879-942), Abade de Cluny, chamado a restaurar, ordenar e consolidar em seus fundamentos a sociedade temporal de então, para que ela se elevasse e atingisse seu apogeu, merecendo assim o título — que um autor francês atribuiu à Idade Média — de “a doce primavera da Fé”.

Iniciando Santo Odon a chamada reforma cluniacense, imprescindível para mudar aquele estado de coisas, sua profunda e benéfica influência fez-se logo notar nas duas esferas, a temporal e a espiritual, graças ao grande número de Santos e homens providenciais que formou, e o papel que estes desempenharam. Basta lembrar o grande Papa São Gregório VII, o monge Hildebrando saído de uma das abadias reformadas por Cluny.

Cluny tornou possível uma tão profunda mudança, que permitiu à Idade Média merecer de Leão XIII (1878-1903) o célebre elogio:

“Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer” (3).

Nascimento de Odon, fruto da oração paterna

O sábio Abon, pertencente à nobreza militar franca e ligado a muitas das casas reinantes da época, mais nobre ainda pela virtude do que pelo brasão de armas, via os anos escoarem-se sem ter filhos. Numa véspera de Natal, cheio de fervor, suplicou com lágrimas ao Divino Salvador que, pela virtude de Seu nascimento temporal e pela fecundidade de Sua Santa Mãe, tornasse fecunda sua esposa, estéril e já passando à maturidade.

No ano seguinte, 879, seus votos foram ouvidos, dando sua mulher à luz um menino, que recebeu o nome de Odon, que ele se apressou em consagrar a São Martinho de Tours, um dos Santos mais populares da época. Quando Odon atingiu a idade da razão, Abon deu-lhe como preceptor um piedoso sacerdote, que o formou na virtude e no rudimento das letras.

Na puberdade, Odon transformara-se em um belo rapaz, cheio de encanto e boa disposição. O pai, por apego, em vez de cumprir o voto que fizera a São Martinho, destinou-o à carreira das armas, enviando-o para a corte de Foulques II, Conde d’Anjou, e depois para a de Guilherme, o Piedoso, Duque da Aquitânia.

Não é de estranhar que, na vida de corte, o jovem Odon, cada vez mais entusiasmado com caçadas, aprendizado das armas e jogos, fosse deixando seus exercícios de piedade. Mas Deus, que o queria para Si, fazia com que, por mais que procurasse, ele não encontrasse nisso senão desgostos. Ao mesmo tempo, sonhos terríveis — nos quais via a punição de uma vida tíbia e relaxada — o aterravam. Angustiado com esse estado de coisas, o adolescente recorreu à Santíssima Virgem: numa noite de Natal suplicou-Lhe instantemente que se apiedasse dele, e o conduzisse pela reta via da santificação.

No dia seguinte, Odon, então com 16 anos, amanheceu com terrível dor de cabeça, incapaz de manter-se de pé. O estranho mal, que durou três anos, foi se agravando de modo a temer-se por sua vida. Foi só então que o pai, assustado e vendo nisso uma punição de São Martinho, narrou ao filho a consagração feita, aconselhando-o a renová-la por si mesmo. Odon o fez, prometendo servir o Santo até o fim da vida. A cura foi instantânea!

Cônego de São Martinho, monge

Agindo em conseqüência, Odon dirigiu-se a Tours para servir a Deus na igreja de São Martinho. Seu antigo protetor, Foulque d’Anjou proporcionou-lhe uma ermida perto da igreja, e fundou nesta uma Canonia para fornecer a Odon a necessária subsistência. Ali, entre a prece e o estudo, Odon passou alguns anos numa vida de austeridade e penitência que emulava com a dos antigos monges do deserto. Partiu depois para Paris, a fim de prosseguir seus estudos filosóficos e musicais.

De volta a Tours, crescendo nele o desejo do isolamento, dirigiu-se para o Mosteiro de Baume, reformado por São Bernon. Este havia obtido do Papa uma bula colocando seu mosteiro e os que viesse a fundar diretamente sob a tutela do Sumo Pontífice. Evitava assim qualquer ingerência do poder temporal. Empenhou-se em que seus monges observassem rigorosamente a Regra de São Bento.

Isso atraiu-lhe muitos varões desejosos de praticar a virtude, entre os quais Santo Odon e Santo Adgrin. O mosteiro já não podia conter tanta gente. Guilherme, o Piedoso, Duque da Aquitânia, veio em seu auxílio, cedendo-lhe uma propriedade que possuía em Cluny. Desse modo, fundava-se em 910 a Abadia que viria a ser como que a alma da Idade Média (4). O exemplo de Guilherme foi seguido por outros potentados, e São Bernon viu-se à testa de seis mosteiros, fundados ou reformados como o de Baume.

O Abade viu logo em Odon qualidades de inteligência e de alma que prometiam assegurar-lhe o futuro de sua obra. Dedicado à instrução dos noviços e numerosos pensionistas do mosteiro, Odon formou-os nas letras humanas e divinas com prudência e raro talento. Como mestre de noviços visava sobretudo incutir-lhes o desapego dos bens terrenos e a procurar em tudo somente Jesus Cristo.

Migalhas de pão transformadas em pérolas

Um milagre que ocorreu nessa época evidencia quanto Odon era dileto ao Criador. Segundo os hábitos do mosteiro, era de regra que os monges pegassem toda migalha de pão que sobrasse ao redor do prato e a pusessem na boca antes de terminada a leitura.

Ora, Odon as havia recolhido, mas absorto com o que era lido, não as levara à boca a tempo. Como, pela regra, não podia comê-las nem deixá-las, não sabendo o que fazer, esperou o término da oração de ação de graças, foi ao meio do refeitório e, prosternando-se diante do Abade, acusou sua falta. Como este não entendeu o que dissera, Odon abriu a mão para mostrar-lhe as migalhas. Estas tinham se transformado em pérolas de especial valor, que foram depois empregadas nos ornamentos da igreja.

Com permissão do Abade, Odon foi à casa paterna dar assistência religiosa a seus idosos pais. Falou-lhes com tanta unção do desapego deste mundo, que ambos, apesar da idade, renunciaram a tudo e entraram num mosteiro para terminar seus dias.

À sua volta o monge, apesar de sua relutância, recebeu o sublime Sacramento da Ordem, tornando-se sacerdote eternamente.

Abade de Casa religiosa esteio de uma época

Antes de falecer, em 927, São Bernon dividiu seus mosteiros entre seu parente Guy e Odon. Este ficou com os de Déols, Massay e Cluny. Foi neste último que ele se fixou, sendo por muitos considerado seu fundador, pois foi quem organizou e desenvolveu a fundação nascente.

Se São Bernon tornara suas abadias conhecidas na Aquitânia e Borgonha, Santo Odon dar-lhes-ia reputação universal.

Prevendo o papel que a Providência Divina reservava a seus mosteiros, procurou ardentemente aumentar a santa milícia que os compunha e dar-lhe formação proporcional ao papel que desempenharia no futuro.

Nesse trabalho o Abade unia, ao mesmo tempo, intransigência férrea, bondade profunda e um humor sempre alegre que conquistava seus monges: “no recreio faz-nos rir até as lágrimas”, dizia um deles. Mas era sempre ele o primeiro no exemplo da observância às regras, na mortificação e nas mais humilhantes penitências.

O silêncio era tão rigoroso em Cluny, que os monges haviam se acostumado a falar por gestos, e o faziam mesmo quando estavam em missão fora do mosteiro, ou como no caso de dois aprisionados pelos Normandos, na prisão onde se encontravam.

A fama de Odon atraiu ao redor de Cluny muitos anacoretas, desejosos de aproveitar sua direção e conselhos.

O Império monástico cluniacense: sustentáculo do apogeu medieval

“Tudo, nesse grande Santo, tinha proporções admiráveis: sua influência, suas boas obras, sua energia” (5). Por isso, muitos Senhores feudais pediam-lhe que aceitasse abadias para reformar, ou fundasse novas em seus domínios. Assim, o abade de Cluny tornou-se tão grande Senhor temporal, que concorria para a paz da Europa, na qualidade de pacificador e conselheiro, procurado como árbitro entre litigantes.

Desse modo visitou Roma três vezes a pedido dos Papas Leão VII e Estêvão VIII. Foi-lhe solicitado, numa das vezes, que reconciliasse o Príncipe de Roma, Alberico, com seu sogro Hugo, Rei dos Lombardos. Se não obteve deles uma paz definitiva, entretanto ambos foram concordes em testemunhar-lhe grande veneração. Alberico estabeleceu Odon como Arquimandrita de todos os mosteiros situados na vizinhança de Roma, incumbiu-o de reorganizar o Mosteiro romano de São Paulo-fora-dos-Muros, ocupar-se de Subíaco, de Santa Maria no Aventino, de São Lourenço e outros famosos mosteiros romanos ou das cercanias.

Em suas constantes viagens apostó1icas, o Abade de Cluny visitou com sucesso Pavia, Monte Gargano, Salerno etc. Mas nada obteve em Farfa, devido à oposição de dois de seus monges, assassinos do último Abade. Somente após a morte do Santo é que uma expedição militar conseguiu instalar ali um reformador.

Assim, Odon percorreu praticamente toda a França e parte da Itália acrescentando casas religiosas a seu imenso império monástico.

Em cada comunidade, nova ou reformada, o Santo passava uma temporada, fazendo observar a regra cluniacense, seus usos e costumes. Conquistava primeiro os religiosos mais antigos e os de boa vontade, e depois, pouco a pouco, os demais.

Para isso, convocava cada manhã os monges para um capítulo, no qual ia lendo e comentando a Regra, respondendo perguntas e aplainando dificuldades. Dessa forma, com suave firmeza, atraía todos para o mais alto. Quando constatava já progressos, deixava alguns dos seus monges continuando sua obra, e passava a outro mosteiro. De tempos em tempos, voltava para reafervorar os tíbios e estimular os fervorosos.

Para preservar a unidade de regime, de estatutos, de regra e de disciplina nessas abadias, era sempre o Abade de Cluny que as governava através de um Prior local. Cluny tornou-se assim a metrópole e cabeça desse sistema abacial, modelo depois seguido por outras abadias, principalmente por Cister.

Em viagem, era comum ver o poderoso Abade descer de sua cavalgadura para socorrer um necessitado, e, muitas vezes, colocá-lo na cavalgadura, puxando ele a rédea até a localidade mais próxima. Sua caridade não conhecia limites. Mandava que os restos de pão e de vinho que sobrassem no refeitório fossem distribuídos aos pobres peregrinos. Cluny alimentava 18 pobres por dia, sendo que, durante a Quaresma, chegava a distribuir víveres para mais de 7 mil indigentes.

Grande músico, Odon compôs 12 antífonas a São Martinho, um hino ao Santíssimo Sacramento, uma antífona a Santa Maria Madalena, tendo escrito também um trabalho teórico sobre música. Conta-se que nas viagens o santo Abade ensinava os pastores a cantar suas antífonas, presenteando-os quando o faziam bem.

“Nunc dimmitis”, após concluída a obra

Enfim, a obra providencial de Santo Odon estava terminada. Dera o impulso inicial desse verdadeiro império monástico, no qual se praticava a observância mais estrita: “De Benevento ao Oceano Atlântico os mais importantes mosteiros da Itália e das Gálias felicitavam-se de estar submissos a seu comando” (6) Ele podia cantar o seu “Nunc dimittis” (Levai-me agora, Senhor), como o Profeta Simeão após conhecer o Redentor. Estando em Roma, grave doença fez-lhe pressentir que seu fim estava próximo. Odon pediu então muito a seu patrono, São Martinho, que lhe fosse concedido morrer junto a seu túmulo, tendo este Santo lhe restituído a saúde. Depois dos muitos sofrimentos e fadigas de tão longa viagem em lombo de burro e a pé até Tours, lá chegou no próprio dia da festa de São Martinho.

Santo Odon celebrou a Missa com um fervor extraordinário, oferecendo-se a Deus como vítima imolada à Justiça Divina. Três dias depois, caiu novamente de cama, e começou a preparar seus filhos espirituais para prosseguirem sua obra em meio a lamentações e preces de milhares deles provenientes de várias casas. Assim entregou sua alma de fogo ao Criador.

Santo Odon selecionara e formara os discípulos na escola que criara. Cluny continuaria por mais de um século a ser dirigida por discípulos que deram origem à famosa série dos “Santos Abades de Cluny”. Esta começa por seu sucessor direto, Beato Aimar, substituído por São Maiolo, elevando-se depois Santo Odilon, para culminar com aquele que talvez foi o maior de todos eles: São Hugo, que levou Cluny a seu apogeu.

Notas
1. Cfr. Vie des Saints et des Bienheureux, RR. PP. Bénéditins de Paris, Éditions Letouzey et Ané, 1954, tomo IX, pp. 624-25.
2. Santos de Cada Dia, Organização do Pe. José Leite, S. J., Editorial A. O., Braga, 1987, vol. III, p.326.
3. Encíclica Immortale Dei, 1-11-1885, Bonne Presse, Paris, Vol. II, p. 39.
4. Cfr. Celso da Costa Carvalho Vidigal, Cluny, Alma da Idade Média, in Catolicismo nº 61, janeiro de 1956.
5. Les Petits Bollandistes, Vie des Saints, d’après le Père Giry, par Mgr Paul Guérin. Typographie des Célestins, Bar-le-Duc, 1874, tomo XIII, p. 495.
6. Idem.
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