Nossa Senhora de Aglona Padroeira da Letônia

Nossa Senhora de Aglona

Nossa Senhora de Aglona Padroeira da Letônia
Durante o mês de agosto, é muito comum realizarem-se peregrinações na parte leste da Letônia. Num país de maioria luterana e atéia, não deixa de ser surpreendente observar grupos de 50, 100, 500 e, muitas vezes, milhares de peregrinos católicos rumo ao Santuário da Mãe de Deus de Aglona.
Poderia causar estranheza que num país de maioria luterana como a Letônia a população ainda tenha orgulho de denominar sua pátria como Terra Mariana — título dado pelo Papa Inocêncio III, em 1215. De tal forma um título concedido pelo Papa é honroso, que até por orgulho os não católicos (comunistas, protestantes, ateus etc.) não abandonam esse nome, embora contrário às suas convicções! O mesmo acorre na Inglaterra, onde a Rainha, de religião anglicana, ostenta o título de Defensora da Fé, dado pelo Papa quando aquela nação era católica…

A maior manifestação religiosa na Terra Mariana de Letônia é a festa da Assunção da Virgem, dia em que Ela é celebrada sob a invocação de Aglona. Vejamos como nasceu essa devoção, que tanto marca aquela nação ainda nos presentes dias.

País nascido de uma cruzada

Quando se fala em cruzada, todo mundo pensa na Terra Santa. É natural, pois as cruzadas mais importantes visaram recuperar o Santo Sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém. O que poucos sabem é que houve cruzadas vitoriosas em duas regiões fora da Terra Santa, dando origem a vários países. Uma delas é a Península Ibérica, onde a cruzada da Reconquista teve como conseqüência a formação da Espanha e de Portugal. A outra região foi a do mar Báltico, onde as cruzadas deram origem à formação das atuais Letônia e Estônia. Esta última cruzada é praticamente desconhecida hoje fora da Europa, estando ela na origem da devoção de Nossa Senhora de Aglona.

Quando o Bispo Alberto de Buxhoeved iniciou seu apostolado para a conversão dos povos bálticos, deparou-se com pagãos obstinados e muitas vezes brutais. Para defender os católicos nativos da vingança dos pagãos, fundou uma ordem militar, os Cavaleiros Porta-espadas. Teve ele o apoio dos Papas, que colocaram essa cruzada sob a proteção da Virgem, concedendo a todos os territórios conquistados o título de Terra Mariana. Aos poucos, com a ajuda de Nossa Senhora e muita sagacidade, foi o Bispo Alberto derrotando sucessivamente as tribos, que formaram o que hoje é a Letônia. Dessas cinco tribos, só uma, a dos látgales, auxiliou de forma plena os cruzados, e foi a que melhor assimilou o cristianismo.

Mas com a apostasia dos cavaleiros da Ordem Teutônica para o luteranismo, em 1525, todo esse esforço ficou com prometido. Todas as tribos tornaram-se luteranas, seguindo o exemplo de seus governantes. Porém os látgales mal assimilaram a “nova religião”. Ficaram nominalmente luteranos, mas com muitos costumes católicos, a ponto de serem os únicos que então conservavam com veneração o título de Terra Mariana. Tão infeliz estado de coisas prolongou-se até que a Polônia católica, no final do século XVI, dominou a parte leste do país, onde moravam os látgales. Sob o impulso de destacados jesuítas, a nobreza polonesa decidiu recatolicizar essa região. E, para obter esse objetivo, foi decisiva a difusão da devoção a Nossa Senhora.

Na origem, quadro pintado por São Lucas

Liderou essa verdadeira reconquista espiritual a nobre Jeta-Justina Sastodicka. Proprietária de numerosas terras, ela trouxe padres dominicanos da Lituânia para que pregassem em toda a região. Doou-lhes um mosteiro com uma pequena igreja anexa, num lugar tão isolado que era chamado de Aglona, que no dialeto local significa Floresta de Pinheiros. E mandou trazer um quadro histórico do Mosteiro de Trakai para tirar uma cópia e colocá-la na igreja.

Esse quadro da Virgem era uma pintura executada no século I pelo Apóstolo São Lucas, que o Imperador Manuel II de Bizâncio tinha enviado ao Grão Duque de Lituânia Vytautas, o Grande, como presente de sua conversão ao catolicismo.

Até hoje não se sabe o que realmente aconteceu: se o quadro original voltou a Trakai ou permaneceu em Aglona, como é voz corrente no país. Muito se discute a respeito. O curioso é que ambas as imagens realizaram numerosos milagres. Porém, os partidários do quadro de Aglona argumentam que, de fato, essa imagem é a mais conhecida e popular, atraindo peregrinações dos russos e bielorussos católicos.

Com os numerosos milagres — atestados pelas lembranças colocadas atrás do altar — aumentou a devoção, e em pouco tempo todo o povo da região, descendente dos antigos látgales, tornou-se maciçamente católico, permanecendo assim até hoje.

Mas a pintura ganhou uma importância maior ao transformar-se em símbolo da resistência nacional. Com efeito, primeiro os czares ortodoxos (cismáticos) e depois os comunistas tentaram eliminar a devoção à Santíssima Virgem, mas não o conseguiram.

Nossa Senhora de Aglona: símbolo da resistência anti-atéia

As duas devastadoras guerras mundiais que ocorreram durante o século XX afetaram profundamente a Letônia. Esse país foi campo de batalha em ambos os conflitos, tendo perdido neles muitos de seus filhos. Pior que isso: durante a Segunda Guerra Mundial a Letônia foi anexada à União Soviética, a qual lançou uma virulenta campanha para erradicar o catolicismo do país. Vários bispos e padres foram aprisionados, alguns martirizados, e as peregrinações a Aglona foram proibidas por constituírem, segundo os comunistas, “superstições do passado”. Não havia lugar para Nossa Senhora no Estado satânico da União Soviética. Porém, a devoção à Virgem e as peregrinações continuaram. Era uma forma de manifestar oposição ao comunismo.

Primeiro os soviéticos expropriaram o local, transformaram o terreno em Kolkhoz (*) e o convento em estábulo. Mas as peregrinações não cessaram. Depois, em finais da década de 50, os vermelhos bloquearam as ruas, fechando o trânsito. Mesmo isso não impediu que muitos continuassem a ir ao local. Para medir a coragem desses resistentes, basta recordar o fato de terem os comunistas deportado, naquela época, cerca de um terço da população para a Sibéria. E muitos dos que tentavam a peregrinação terminavam nas prisões. Depois eram deportados ou mortos. Reduziu-se o número de peregrinações, mas elas prosseguiram.

Comunismo impotente para extinguir a fé católica

Em 1961, o governo comunista decidiu endurecer ainda mais a repressão. Expulsou as freiras que tinham conseguido sobreviver no local e chegou a queimar a valiosa biblioteca do antigo convento. Mas uma oposição surda continuava. A atitude varonil dos católicos, especialmente do Bispo, Mons. Dulbinskis, despertava a admiração no resto da população, mesmo entre luteranos ou ateus. A tal ponto que eles começaram a dar nomes católicos a seus filhos, mudando totalmente o costume — vigente até 1940 — de dar-lhes nomes pagãos. Também o costume dos católicos de denominar o país de Terra Mariana foi adotado pelo restante da população.

Os comunistas, não conseguindo dobrar os católicos, mudaram de tática. Nos dias em que as peregrinações eram maiores (sobretudo na festa da Assunção), distribuíam produtos em falta, com a finalidade de segurar os peregrinos nas cidades. Nesses dias, permitiam a exibição de filmes ocidentais — o que era proibido nos outros dias. Ordenavam às escolas e universidades atividades obrigatórias, sob pena de expulsão. Mesmo tais expedientes não detiveram as peregrinações.

Quando, em 1980, comemorou-se o 800º aniversário do início da catolicização da Letônia, a festa foi celebrada em Aglona. A polícia soviética ficou quase sem meios para impedir a comemoração, devido ao enorme número de pessoas que se dirigiam ao Santuário de Nossa Senhora de Aglona.

Finalmente, em 1991, ruiu o Império Soviético, mas o costume de visitar a Imagem de Nossa Senhora de Aglona permanece de pé. Por isso vemos, ainda hoje, especialmente na festa da Assunção, multidões a caminho da antiga Floresta de Pinheiros, onde a Mãe de Deus os espera para abençoá-los e atender seus pedidos.

* Kolkhoz: kolletivnoe khozyarstvo, fazenda coletiva dirigida por comunistas na União Soviética.
Obras consultadas:
William Urban, The Baltic Crusade, Lithuanian Research and Studies Center, Chicago (USA), 2ª edição, 1994.
Erik Christiansen, Les Croisades Nordiques, Ed. Alerion, 1996.
Domenico Marcucci, Santuari Mariani d’Europa, Milão, Ed. San Paolo, 1993.
Valdis Veilands, Latvija Kabata, Riga, Ed. Preses Nams, 1995.
Roger Williams, Baltic States, Insight Guides, Londres, 1995.
Cadastre seu email para receber as atualizações deste blog

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: