Semana Santa: Considerações sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo por Santo Tomás de Aquino

Ecce Homo - Anônimo, 1570. Museu Nacional de Arte Antiga. Lisboa

Semana Santa: Considerações sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo por Santo Tomás de Aquino
· Por que quis Jesus Cristo padecer as torturas da paixão, antes de padecer a morte na cruz?

* Primeiramente para obedecer aos mandados do Pai, que assim o havia determinado nos seus decretos eternos; e além disso porque Jesus Cristo, profundo conhecedor do plano divino, sabia que a Paixão era a obra prima da sabedoria e amor de Deus, planejada para levar ao fim, com a maior eficácia, a Redenção do gênero humano, confundir o demônio, nosso mortal inimigo, e oferecer aos homens o testemunho supremo do grande amor com que Deus os amou. (XLVI,1)
· Os tormentos que Jesus Cristo padeceu, na sua Paixão, excedem, em conjunto, a quanto se há padecido e se há de padecer?

* Sim; porque o seu corpo, cuja sensibilidade foi a mais delicada e perfeita que pode haver, foi torturado com toda a diversidade de suplícios, os quais não deixaram órgão nem sentido que não atormentassem; sem que a parte superior do espírito, que desfrutava o pleno gozo da visão beatífica, viesse em auxílio do corpo ou mitigasse os tormentos da dolorosa sensibilidade; e a sua alma, ao tomar sobre si a responsabilidade e a obrigação de satisfazer por todos os pecados do mundo, quis experimentar torturas e dores proporcionadas àquele objeto. (XLI,5,6)

· De que modo levou ao fim a Paixão de Cristo a obra da nossa salvação?

* Considerada a paixão de Cristo em relação com a divindade, da qual a humanidade paciente era instrumento, é causa eficiente de nossa Salvação; se a consideramos como livremente aceita por sua vontade humana, é causa meritória; tomada em si mesma, como padecimento e suplício da parte sensível do Redentor, obrou-a por modo de satisfação, já que os seus tormentos compensaram os que mereciam os nossos pecados; por modo de Redenção, se atendermos a que, por ela, nos resgatou da escravidão do pecado e do demônio; e por modo de sacrifício, se considerarmos que nos reconciliou com Deus e voltamos a achar graça diante dos seus olhos. (XLVIII,1-4)

· É próprio e exclusivo de Cristo o atributo de Redentor do gênero humano?

* Sim; porque foi Ele quem, para partir as cadeias com que nos tinham algemados o demônio e o pecado, ofereceu e entregou ao Pai o sangue e a vida, como preço do nosso resgate e liberdade. Não obstante isto, tendo em conta que a humanidade do Salvador havia recebido sangue e vida da Santíssima Trindade, e que o movimento que impeliu a vontade humana a oferecer semelhante preço por nossa redenção partiu, em sua origem, da Divindade, causa primeira de todo bem, segue-se que a obra da redenção se atribui à Santíssima Trindade, como causa primeira, e ao Filho de Deus, enquanto homem, como causa imediata. (XLVIII,5)

· Logo, a Paixão de Cristo remiu-nos da escravidão do demônio, arrancando-nos do seu poder?

* Sim; porque destruiu o pecado com que o homem, cedendo às sugestões do demônio, tinha merecido ficar sujeito ao seu domínio; e nos reconciliou com Deus, a quem havíamos ofendido, cuja justiça havia abandonado o homem ao poder do demônio; e utilizou até o poder tirânico de Satanás, permitindo-lhe enfurecer-se contra o Filho de Deus até fazê-lo condenar à morte, sendo inocente. (XLIX,1-4)

· Podemos considerar como efeito especial da Paixão de Cristo o de abrir-nos as portas do Céu?

* Sim; porque dois eram os obstáculos que impediam a entrada no Céu, ao gênero humano: o pecado original, comum a todos os homens como descendentes, por via de geração, de Adão pecador; e os pecados pessoais. Ambos estes obstáculos se destruíram com a Paixão de Cristo. (XLIX,5)

· Foi conveniente que a Paixão do Redentor terminasse com a morte?

* Sim; porque foi o meio mais adequado e apropriado para que o homem sacudisse o jugo e a servidão com que o tinham cativo a morte espiritual do pecado e a morte física, imposta como castigo da culpa original. Com efeito, ao morrer Cristo pelos homens, venceu a morte e logrou que nós triunfássemos também dela, perdendo o horror natural que ela inspira, pois sabemos que morremos para ressuscitar, e sobretudo para que, como membros seus, morramos com as mesmas disposições com que Ele morreu e consigamos sobre a morte o triunfo que Ele alcançou. (L,1)

· Por que quis ser sepultado depois de morrer?

* Primeiramente, para demonstrar que realmente estava morto, pois, de ordinário, a ninguém se sepulta antes de comprovar suficientemente a morte real; em segundo lugar, para confirmar, com a sua Ressurreição, o dogma da ressurreição universal; e por último, para ensinar-nos que, se queremos morrer para o pecado, temos que nos despedir da vida turbulenta, em que imperam o desregramento e a paixão, e abandoná-la para levar uma vida escondida e oculta em Deus. (LI,1)

(“A Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, em forma de catecismo para uso de todos os fiéis” do Pe. Tomás Pègues, O.P. – para o cotejo desse texto com o texto do Santo, estão citadas as questões e os artigos, indicando as primeiras com caracteres românicos e os segundos com caracteres arábicos.)
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