O amor de Santa Tereza aos Reis

Santa Tereza de Jesus

O amor de Santa Tereza aos Reis

Não há quem possa viver no meio de tantos enredos, especialmente se intervém algum interesse. Bem-aventurada a alma que o Senhor eleva ao conhecimento da Verdade. Oh! que estado este, para os reis! Como lhes valeria muito mais procurá-lo do que ter grande poderio! Que retidão haveria no reino! Que multidão de males se evitariam no presente e se teriam evitado nos tempos idos! Não se teme, então, perder a vida nem a honra por amor de Deus! Que grande bem este para aqueles que, sendo reis, a quem todos hão de seguir, mais do que ninguém estão obrigados a zelar a honra do Senhor! Por dilatar um pouco a fé e dar alguma luz aos hereges, perderiam mil reinos, e com razão, pois se trataria de maior ganho, qual o dum reino infindável. A alma, com o gozo duma só gota da água que há por lá, sente asco de tudo que existe na terra. Que será quando de todo estiver nela engolfada?

Senhor! Se me désseis estado e poder para clamar a todos estas verdades, não me creriam, como não crêem quando dito por muitos que o sabem dizer melhor do que eu. Porém, ao menos me sentiria satisfeita. Parece-me que teria em pouca monta a vida, se à custa dela pudesse dar a entender uma só destas verdades. Não sei depois como faria, pois não há que fiar de mim. Contudo, sendo eu quem sou, tenho tão grandes ímpetos de dizer isto aos que governam, que me sinto consumida. Vendo que nada posso, torno-me a Vós, Senhor meu, a pedir-vos remédio para tudo. E bem sabeis que, desde que nisso não vos ofendesse, de muito bom grado me despojaria das mercês que me tendes feito e as daria aos reis, porque sei que lhes seria impossível consentir no que agora toleram, e daí resultariam grandíssimos bens.

Deus meu, dai-lhes a entender a que estão obrigados, pois de tal maneira quisestes distingui-los na terra, que segundo tenho ouvido aparecem sinais no céu quando desta vida levais algum deles. Sinto-me, na verdade, enternecida ao pensar, Rei meu, que até nessas demonstrações que de algum modo há no céu por ocasião da sua morte, como houve na vossa, quereis que entendam deverem imitar-vos na vida. Atrevo-me a muito. Rasgue Vossa Mercê (seu confessor) o que digo, se lhe parecer mal, e creia que melhor o diria em presença dos próprios reis, caso pudesse fazê-lo e esperasse merecer crédito, porque os encomendo muito a Deus, e quisera que fosse com proveito. Seria aventurar a vida, mas desejo muitas vezes estar sem ela; e seria arriscar pouco para ganhar muito, pois já não se pode viver, vendo a olhos vistos o grande engano em que andamos e a cegueira que razemos.

Chegada a alma aqui (4º grau da oração), não tem só desejos da glória de Deus: dá-lhe Sua Majestade forças para os realizar. Não se lhe oferece empreendimento que não se abalance a acometer, se o julga do serviço do Senhor; e nada faz, porque como digo vê claramente que, fora de contentar a Deus, tudo é sem valor. O que realmente custa é não se apresentarem ocasiões de Lhe ser agradável, a quem é tão balda de préstimo como eu.

Sede servido, Bem meu, que venha tempo em que vos possa pagar algum ceitil do muito que vos devo. Ordenai, Senhor, como vos aprouver, contanto que esta vossa serva de algum modo vos sirva. Mulheres eram também outras, e no entanto fizeram coisas heróicas por amor de Vós. Quanto a mim, sirvo apenas para tagarelar, e por isso não quereis, Deus meu, ocupar-me em obras. Reduz-se todo meu serviço a palavras e a desejos de fazer muito. Mesmo para isto não tenho liberdade, e se porventura tivesse, cometeria faltas em tudo. Fortalecei minha alma, disponde-a primeiro ó Bem de todos os bens! ó Jesus meu! e ordenai logo ensejos e meios de fazer eu alguma coisa por Vós, pois já não há quem suporte receber tanto sem nada pagar. Custe o que custar, Senhor, não queirais que me apresente diante de Vós com as mãos tão vazias, pois de acordo com as obras se há de dar o prêmio.

Eis aqui minha vida, eis aqui minha honra e minha vontade; tudo já vos dei; sou vossa; disponde de mim como quiserdes. Bem vejo, meu Senhor, o pouco de que sou capaz. Chegada a Vós, do alto dessa atalaia donde se descortinam as verdades, se não vos apartardes de mim tudo poderei; mas apartando-vos, por pouco que seja, irei para o inferno, lugar onde estava.
(Santa Tereza de Jesus, “Livro da Vida” – Vozes, Petrópolis, 1961)
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