Irradiação sobrenatural e vida interior

Deus o Pai Eterno

Irradiação sobrenatural e vida interior O fato de Deus ser oculto Deus absconditus é um dos obstáculos mais graves para a conversão das almas. Deus, porém, por efeito de sua bondade, de alguma forma se manifesta por meio dos seus santos, e até por meio de almas fervorosas. Assim é que o sobrenatural transpira aos olhos dos fiéis, que vislumbram alguma coisa do mistério de Deus.

Que é, pois, essa difusão do sobrenatural? Não será o brilho da santidade, o esplendor do influxo divino, chamado correntemente pela Teologia graça santificante? Ou melhor, não será talvez o resultado da presença inefável das Pessoas Divinas naquele que Elas santificam?

Outra não era a explicação de São Basílio: “Quando o Espírito Santo se une às almas que a graça purificou, é para espiritualizá-las ainda mais. Como o sol torna mais rutilante o cristal que toca e penetra com o seu raio, assim o Espírito Santificador torna mais luminosas as almas onde habita, e estas, devido a tal presença, por sua vez tornam-se outros tantos focos, que difundem em torno a graça santificante”.

Essa manifestação do divino, que se traía em todos os gestos e até no repouso do Homem-Deus, nós a vislumbramos em certas almas dotadas de vida interior mais intensa. Aí estão, clamando bem alto o segredo do seu silencioso apostolado, as conversões maravilhosas que operavam certos santos só com a fama de suas virtudes, as plêiades de aspirantes à vida perfeita que iam pedir-lhes a graça de segui-los. Com Santo Antão, assim se povoaram os desertos do Oriente. São Bento fez surgir essa inumerável falange de santos religiosos que civilizaram a Europa.

São Bernardo exerceu influência sem par, assim na Igreja como sobre os reis e sobre os povos. São Vicente Ferrer excitava, à sua passagem, entusiasmo indescritível em multidões imensas, e, o que é mais, provocava a conversão delas. No encalço de Santo Inácio ergue-se esse exército de bravos, um dos quais, Francisco Xavier, por si só basta para regenerar uma quantidade incrível de pagãos. Somente a irradiação do poder do próprio Deus, através desses instrumentos humanos, pode explicar a razão desses prodígios.

Que desgraça, quando não há almas verdadeiramente interiores entre as pessoas que estão à frente de obras importantes! O sobrenatural parece eclipsado, o poder de Deus fica como encadeado. Como os santos nos ensinam, é então que um país declina, e que a Providência parece abandonar aos maus todo o poder de fazer estragos.

Compenetremo-nos bem desta verdade: as almas, como que instintivamente, e sem lograrem claramente definir o que sentem, percebem essa irradiação do sobrenatural. Vede como de bom grado se vai prostrar aos pés do sacerdote, e implorar perdão, esse pecador que reconhece o próprio Deus na pessoa de seu representante. E desde o dia em que o conceito integral de santidade cessa de ser o ideal necessário do ministro de tal ou tal seita cristã, essa seita se vê infalivelmente obrigada a suprimir a confissão.

Johannes quidem signum fecit nullum
Na verdade, João não fez nenhum milagre (Jo. 10,41). Sem fazer nenhum milagre, João Batista atraía as multidões. Bem fraca era a voz de São Vianney, para se fazer ouvida da multidão que em volta dele se apinhava. Sem embargo, se não ouviam, viam-no viam uma custódia de Deus e só essa vista subjugava e convertia os assistentes. Voltara de Ars um advogado. Como lhe perguntassem o que mais o tinha impressionado, respondeu: “Vi Deus num homem”.

Lícito nos seja resumir tudo por meio de uma comparação um tanto vulgar. É bem conhecida a seguinte experiência de eletricidade: Colocada sobre um isolador, uma pessoa é posta em comunicação com uma máquina elétrica; seu corpo carrega-se de fluido elétrico; mal alguém se aproxima dela, logo se deflagra a faísca, que faz estremecer aquele que se põe em contato com tal pessoa.

Assim acontece para o homem interior. Uma vez desapegado das criaturas, entre Jesus e ele logo se estabelece uma comoção incessante, uma como que corrente contínua. O apóstolo, transformado em acumulador de vida sobrenatural, condensa em si o fluido divino, que se diversifica e se adapta às circunstâncias e a todas as exigências do meio em que opera: Virtus de Illo exibat et sanabat omnes
Saía d’Ele uma virtude que os curava a todos (Lc., 6, 19). As suas palavras e atos tornam-se então os eflúvios dessa força, que é latente, mas sumamente eficaz para derrubar os obstáculos, alcançar conversões e aumentar o fervor.

Quanto mais as virtudes teologais existirem num coração, tanto mais esses eflúvios hão de ajudar a fazer nascer essas mesmas virtudes nas almas.

(D. Jean-Baptiste Chautard, “A Alma de Todo Apostolado” – Ed. F.T.D., 1962, p. 116)
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