Refeição, convívio e civilização

Les très riches heures du Duc de Berry. Banquete medieval. Note-se que ainda não se utilizavam talheres, um progresso que veio depois. Ao fundo, uma cena de batalha (está em curso a Guerra dos Cem Anos, entre a França e a Inglaterra)

Alimentar-se é um ato banal? – Para o homem moderno, habituado à banalidade, certamente. Mas, em si, é ação nobre e rica em significados.

Quis Deus colocar no alimento a prova de nossos primeiros pais. O “fruto proibido” que está na raiz do pecado original simbolizava, a seu modo, algo mais alto do que o simples fato de comer.

Alimentar-se é manter a vida. Mas o homem, criatura racional, não se alimenta como um bicho. A refeição é um ato familiar por excelência, e como ato social pede certo protocolo, certo cerimonial. Protocolo e cerimonial que impõem ao homem o exercício da virtude da temperança.

Em remotíssima era já vemos Abraão desdobrar-se em gentilezas para oferecer hospitalidade a três desconhecidos que passavam por sua tenda. Na realidade eram anjos que vinham anunciar-lhe a vocação de patriarca (Gen. 18, 1-8). E o melhor ato de cortesia era oferecer uma refeição aos viajantes.

Quando os judeus fugiram do Egito com Moisés, Deus mandou-lhes do Céu o maná para alimentá-los. E nas vésperas de sua Paixão e Morte, Jesus quis que sua última ceia fosse ocasião para instituir o mais santo e sublime dos sacramentos: a Eucaristia, que é o próprio Corpo e Sangue de Cristo, com sua alma e divindade. Tendo Ele se encarnado, desejou que os homens participassem da graça divina pela Comunhão eucarística. Haverá algo mais elevado?

Após a Ressurreição, apareceu Jesus aos discípulos de Emaús e comeu com eles. O mesmo fez com os Apóstolos surpresos: “Tendes aí alguma coisa que se coma?“. Deram-Lhe uma posta de peixe assado; e, tomando-a, comeu diante deles (Lc 24, 41).

Por isso é natural que os homens dêem graças a Deus pelo alimento que recebem e peçam a bênção divina. Ainda que não se considere o aspecto religioso, a refeição é de si um ato humano que se reveste de dignidade.

Será simples e discreto na vida diária, será mais formal e até requintado nas ocasiões solenes.

Talvez se possa até medir o grau de civilização de um povo segundo o modo de ele se alimentar. O índice maior ou menor de solenidade nas refeições poderia significar progresso ou decadência.

O Império Romano, admirável por tantos lados, serve de exemplo. É sabido que os romanos pagãos facilmente se entregavam a degradantes orgias. Propensos à gula, muitos, tendo comido em excesso, mandavam os escravos introduzirem penas em suas gargantas a fim de provocar o vômito, e assim poderem continuar no banquete. É repugnante.

Muitos povos bárbaros que se converteram ao Cristianismo, ao contrário, progrediram nesse aspecto de modo notório, conferindo maior solenidade às refeições importantes.

Desse modo se condensou, ao longo dos séculos, uma série de normas sobre o modo de servir, regras de cortesia ou etiqueta, protocolos que indicam a posição dos comensais segundo a hierarquia social, constituindo um mundo que facilita e eleva o convívio humano.

Assim, é sinal de civilização quando, mesmo nas refeições diárias mais simples, certas regras de protocolo são observadas: o pai ou chefe de família preside; a mãe o secunda; os filhos, os demais familiares ou os convidados se distribuem não necessariamente conforme as idades, mas conforme as conveniências e costumes.

Outrora a autoridade do chefe de família era tal que, mesmo quando se recebia o próprio rei, a cabeceira principal cabia ao dono da casa. Em seu lar, o pai de família é o rei… como o rei deve ser o pai de seu povo.

Entretanto, o cerimonial só tem autenticidade se praticado por pessoas que lhe dão valor. Ele pode alcançar a perfeição se tiver como lastro a caridade cristã, que manda amar o próximo como a si mesmo. Nesse caso, estabelece-se facilmente uma espécie de liturgia social na qual primam o respeito, a noção de honra, de cortesia.

As doçuras do bom trato não excluem os temperos amargos do sacrifício, pois onde há cerimonial há hierarquia, desigualdade, superiores e inferiores; uns mandam, outros obedecem, o que é natural para um espírito católico mas não é suportável para o orgulho humano quando não contido. Um sorriso pode custar mais que uma jóia.

Por isso o Divino Mestre, ao ver no Cenáculo que os Apóstolos discutiam entre si questões de precedência, quis dar-lhes uma lição de humildade lavando-lhes os pés: “O maior deverá fazer-se o menor, e o que manda será como um servidor dos outros“. Porque mais importante do que reinar neste mundo é alcançar o reino dos céus (cf. Lc 22, 24-30).

A felicidade do convívio humano encontra-se sobretudo no amor ao próximo por amor de Deus.

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