O "Pequeno Rei"; Divino Menino Jesus de Praga

O Pequeno Rei; Divino Menino Jesus de Praga

O “Pequeno Rei”; Divino Menino Jesus de Praga

A imagem do Menino Jesus de Praga, a mais famosa do Divino Infante, tornou-se objeto de veneração universal, com réplicas disseminadas em todo o orbe, inclusive no Brasil

Embora muitos tenham ouvido falar do Menino Jesus de Praga, poucos conhecem dados concretos a respeito dessa devoção à divina infância do Salvador do mundo1. Transcorrendo neste mês a comemoração do nascimento do Divino Redentor — a data máxima da Cristandade — julgamos oportuno apresentar a nossos leitores o admirável histórico dessa devoção ao Deus-menino.

Desde tempos imemoriais, os justos do Antigo Testamento ansiavam pela vinda do Prometido das Nações, que viria endireitar os caminhos tortuosos, aplainar os montes, encher os vales. Numa palavra, abrir o Céu para a humanidade pecadora. O Profeta por excelência desses futuros acontecimentos, Isaías, sete séculos antes da vinda do Divino Redentor, anunciou que Ele nasceria de uma Virgem.

Nos primeiros séculos da era cristã, muitos foram os santos que abordaram o tema do Deus Menino e seu nascimento, especialmente o Papa São Leão Magno2.

Coube à Idade Média a glória de corporificar e expandir essa devoção. Vários santos foram então chamados pela graça divina a manifestar especial enlevo pela divina infância de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual se chega por meio de Nossa Senhora. São Francisco de Assis, ao meditar enternecido a respeito do grande Deus que se tornou frágil Menino numa manjedoura, montou o primeiro presépio para representar esse divino mistério. Santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa), seguindo o exemplo de seu mestre e fundador, encantava-se com o Deus-Menino, e mereceu recebê-Lo várias vezes milagrosamente em seus braços. E é desse modo que o grande santo franciscano é comumente representado. Outros santos tiveram a mesma graça.

Entretanto, foi na Espanha da Contra-Reforma, durante o chamado “século de ouro”, que o divino Menino Jesus passou a ser venerado em imagens em que aparece de pé, manifestando um ou outro de seus atributos.

A grande Santa Teresa de Ávila introduziu essa devoção em seus conventos, e a partir deles espraiou-se por toda a Espanha e depois pelo mundo. Seu discípulo e co-fundador do ramo carmelita masculino reformado, o sublime São João da Cruz, entusiasmava-se tanto com esse mistério de um Deus feito homem, que, durante o período de Natal, levava a imagem do Menino Jesus em procissão, e bailava com ela ao colo. Compôs também tocantes poesias sobre a Natividade.

Assim, surgiram nos conventos carmelitas várias invocações do Menino Jesus, como El Peregrinito, El Lloroncito, El Fundador, El Tornerito e El Salvador.

Mas tal devoção não se limitava aos claustros. Já Fernão de Magalhães, quando descobriu as Filipinas, levava consigo uma dessas imagens de Jesus Menino, e lá a deixou, sendo ela venerada até hoje na ilha de Cebu.

Carmelita Venerável: confidente do Divino Infante

Coube porém a uma filha de Santa Teresa ser a confidente do Menino Jesus e a propagadora da sua devoção. Trata-se da Venerável Margarida do Santíssimo Sacramento (1619-1648), carmelita do convento de Beaune, na França. Esta freira, falecida aos 29 anos, entrou para o convento aos 11 anos como pensionista. Tinha grande familiaridade com os Anjos e Santos e o privilégio de participar de todos os grandes mistérios da Vida do Salvador, como seu Nascimento, Transfiguração e Paixão. Entretanto, recebeu a missão especial de venerar e propagar especialmente a devoção à divina infância de Cristo.

“Eu te escolhi para honrar e tornar visível em ti minha infância e minha inocência, quando eu jazia no presépio”, disse-lhe o Menino-Deus, quando ela rezava diante de uma imagem sua existente no convento, conhecida como O Rei da Glória. A Irmã Margarida do Santíssimo Sacramento recebia muitas graças extraordinárias, mediante as quais o Menino Jesus fazia-lhe compreender de um modo mais profundo esse mistério3.

Ela fundou a Família do Menino Jesus, convidando todos os que dela quisessem participar a celebrarem com fervor os dias 25 de cada mês, em lembrança da Santa Natividade, e a rezarem a Coroinha do Menino Jesus (três Padre-Nossos e 12 Ave-Marias) em honra dos 12 primeiros anos de sua vida.
Dois séculos mais tarde, outra carmelita, Santa Teresinha do Menino Jesus (+ 1897), honrou de modo especial o Deus-Menino, não só ao escolhê-Lo para seu nome em religião, mas iniciando a via da “Infância Espiritual”. Foi numa noite de Natal, a de 1886, que ela recebeu a maior graça de sua vida, segundo disse, isto é, a de sair da imaturidade da infância para entrar na grande via dos santos.

Ela se abandonava ao Deus-Menino com toda docilidade, como uma bola nas mãos de uma criança. Quando recebeu o encargo de adornar uma imagenzinha do Menino Jesus que havia no claustro, ela o fazia com grande devoção. Além disso, mantinha prolongados colóquios com o Deus-Menino diante da imagem do Menino Jesus de Praga que se encontrava no coro do noviciado.

Maravilha de Praga: o Pequeno Rei

Praga, capital da atual República Checa, é considerada, a justo título, uma das mais belas capitais da Europa. O visitante não se cansa de percorrê-la, sempre descobrindo coisas novas e maravilhas não suspeitadas. Sua topografia concorre muito para sua beleza, e o rio Moldava, que a corta, tornou-se quase legendário. A arquitetura de Praga reflete os vários períodos de sua história. Nela se vêem desde fundações românicas, belíssimos exemplos do gótico religioso e civil, edifícios renascentistas, barrocos e clássicos. E até um exemplo da chamada “arte” moderna, como infeliz concessão ao espírito do tempo.

Entre os inúmeros prédios dignos de menção nessa cidade privilegiada, figura a igreja de Nossa Senhora das Vitórias, primeiro santuário barroco local, erigido de 1613 a 1644. Pertencente aos carmelitas descalços, nela está a grande maravilha de Praga: a encantadora imagem do Pequeno Rei, como é conhecido o Menino Jesus de Praga.

Raízes de uma devoção providencial

No século XVII, no primeiro período da sangrenta Guerra dos Trinta Anos, o Geral dos Carmelitas Descalços, Venerável Frei Domingos de Jesus Maria, havia se destacado, exortando os exércitos católicos na vitória do imperador alemão contra o príncipe eleitor do Palatinado, o calvinista Frederico. Em sinal de gratidão a ele, em 1624 o Imperador Fernando II chamou os carmelitas a Praga — então capital do Sacro Império Romano Alemão — e concedeu-lhes a igreja rebatizada com o nome de Santa Maria da Vitória, pela ajuda concedida pela Mãe de Deus ao exército católico naquela batalha.

No ano de 1628, Frei João Luís da Assunção, então Prior dos carmelitas descalços da cidade, comunicou a seus religiosos que havia sentido uma moção interior no sentido de que venerassem de um modo especial o Deus-Menino, para que Ele protegesse a comunidade, e a fim de que os noviços aprendessem com Ele a ser pequeninos para entrarem no reino dos Céus.

Quase simultaneamente a Providência inspirou a Princesa Polyxena de Lobkowicz — que então enviuvara e ia se retirar para seu castelo de Roudinice nad Labem — a doar ao convento carmelita uma imagem de cera do Menino Jesus, que possuía. Ele era representado de pé, portando trajes reais, com o Globo na mão esquerda e a direita em atitude de abençoar. Tal imagem era querida recordação de família, pois sua mãe, Da. Maria Manrique de Lara, a recebera como presente de núpcias quando se casou com Vratislav de Pernstein, e a dera à filha também como presente de bodas.

A Princesa Polyxena disse ao prior, ao entregar-lhe a imagem: “Eu vos ofereço, querido padre, o que mais quero no mundo. Honrai este Menino Jesus e assegurai-vos de que, enquanto O venerardes, nada vos faltará”.

Frei João Luís agradeceu o presente, que vinha tão milagrosamente ao encontro do seu desejo, e ordenou que a imagem fosse colocada no altar do oratório do noviciado. Ali os carmelitas se reuniriam todos os dias para louvar o Divino Infante e recomendar-Lhe suas necessidades.

Depois de um primeiro momento de prosperidade em Praga, os carmelitas ficaram reduzidos quase à miséria. O prior e seus súditos recorreram ao Menino Jesus, pedindo-Lhe que lhes fosse propício. Essa confiança não foi infundada. O Imperador Fernando II, Rei da Boêmia e da Hungria, conhecendo as necessidades pelas quais passava a comunidade carmelita, concedeu-lhe uma renda anual de mil florins e um auxílio sobre as rendas imperiais.

Ao mesmo tempo, sucedeu outro fato extraordinário que comprovava o quanto o Menino Jesus de Praga não deixava de socorrer aqueles que a Ele recorressem. Existia no convento uma vinha, a qual havia tempos estava completamente estéril. De repente, da forma mais imprevista, começou a florescer e a frutificar, sendo seus frutos mais doces e esplêndidos do que se podia imaginar.

Frei Cirilo: de miraculado a apóstolo do Menino Jesus de Praga

Habitava esse convento um jovem sacerdote, Frei Cirilo da Mãe de Deus, que, tendo deixado o ramo carmelita mitigado, abraçara a reforma de Santa Teresa. Porém, em vez de encontrar a paz que tanto esperava, sentia-se como um réprobo, sofrendo as penas do inferno. Nada o consolava ou apaziguava.

O prior, notando-o macambúzio e abatido, perguntou-lhe o que estava acontecendo. Frei Cirilo abriu-lhe o coração, contando todas as suas penas. “Uma vez que o Natal se aproxima, disse-lhe o prior, por que não se põe aos pés do Santo Menino e lhe confia todas as suas penas? Verá como Ele o ajudará”.

Obedecendo, Frei Cirilo dirigiu-se à imagem do Menino Jesus: “Querido Menino, olhai minhas lágrimas! Estou a vossos pés, tende piedade de mim!” No mesmo instante, sentiu como que um raio de luz penetrar em sua alma, fazendo desaparecer todas as angústias, dúvidas e sofrimentos.

Comovido e sumamente agradecido, Frei Cirilo tornou-se um verdadeiro apóstolo do Divino Infante.

Ataque sacrílego de protestantes

Entretanto, os protestantes se reagruparam em novembro de 1631, sob o comando do príncipe eleitor da Saxônia, e assediaram novamente Praga. Houve pânico entre os imperiais e a angústia dominou os habitantes da cidade. Muitos fugiram.

Frei João Maria, por prudência, mandou seus frades para Munique, permanecendo ele na cidade para custodiar o convento com apenas mais um religioso.

Praga capitulou. Os soldados protestantes invadiram igrejas e conventos, profanando e destruindo os objetos do culto católico. Puseram na prisão os dois frades carmelitas e começaram a depredar o convento. Vendo no oratório dos noviços a imagem do Menino Jesus, começaram a rir e a zombar dela. Um dos soldados, desejoso de mostrar-se diante dos outros, com a espada decepou as mãozinhas da imagem sob os aplausos dos companheiros. Depois, empurrou-a para o meio dos escombros a que ficara reduzido o altar.

Ali o Menino Jesus ficou esquecido.

Assinada a paz em 1634, os carmelitas puderam regressar a seu convento. Frei Cirilo não voltou com os outros, e ninguém mais se lembrou da imagem do Menino Jesus. Três anos mais tarde chegou Frei Cirilo e logo deu pela falta. Procurou a preciosa imagem, mas não a encontrou. Não havia o que fazer.

A paz, entretanto, não fora duradoura. Os suecos, rompendo os acordos, sitiaram outra vez Praga, queimando em seu caminho castelos e povoações.

O prior recomendou a seus frades que rezassem, pois só a oração podia salvá-los desta vez. Então Frei Cirilo sugeriu que se recomendassem ao Pequeno Rei, e pôs-se a procurar novamente a imagem. Depois de muito trabalho, encontrou-a finalmente atrás do altar, coberta de pó e sujeira. Por incrível que pareça, ninguém havia mexido naquele local durante aqueles atribulados tempos. Com alegria, levou-a ao prior. Diante da imagem com as mãos decepadas, os frades oraram fervorosamente pela salvação da cidade, o que realmente se deu. Os suecos levantaram o cerco.

Milagrosa restauração da imagem do Menino Jesus

Quando a imagem foi de novo entronizada no oratório dos noviços, os benfeitores do convento, que durante esses difíceis anos haviam também sumido, voltaram a trazer sua ajuda.

Certo dia Frei Cirilo estava em oração diante do Menino Deus, pedindo pela comunidade, quando Este lhe disse tristemente: “Tende piedade de mim, e eu terei piedade de vós. Restituí-me as mãos que me cortaram os hereges. Quanto mais me honrardes, mais vos favorecerei”.

Por motivos ignorados, o frade até então, não tinha se empenhado em restaurar a imagenzinha. Apressou-se a narrar ao prior o sucedido. Mas este parece não lhe ter dado muito crédito. E por causa da indigência em que se encontrava o convento, disse que era necessário esperar dias melhores, pois havia necessidades mais prementes.

Profundamente aflito, Frei Cirilo pediu a Deus que lhe desse os meios de restaurar a imagem, e a ajuda veio de maneira inesperada. Um nobre estrangeiro pediu àquele religioso para se confessar, e depois disse-lhe: “Reverendo Padre, estou convencido de que o bom Deus me conduziu a Praga para me preparar para a morte e fazer-vos um pouco de bem”. E entregou-lhe uma esmola de cem florins.

O frade procurou o prior, entregando-lhe a importância e pedindo pelo menos um florim para restaurar a imagem. Mas o prior, apesar desse pequeno milagre, disse que isso não era tão premente e podia esperar. Pior: mandou que Frei Cirilo tirasse a imagenzinha do oratório e a levasse para sua cela até que pudesse ser restaurada. Com lágrimas nos olhos, o frade obedeceu, pedindo ao Pequeno Rei perdão por sua incompreensão.

Apareceu-lhe então a Santíssima Virgem e o fez compreender que o Menino Jesus deveria ser restaurado o quanto antes, e ser exposto à veneração dos fiéis em uma capela a Ele dedicada. É sempre Nossa Senhora quem conduz a Jesus!

Uma circunstância propícia surgiu quando foi eleito novo prior, pouco tempo depois. Frei Cirilo fez-lhe o mesmo pedido, e este respondeu: “Se o Menino nos der antes sua bênção, então farei reparar a imagem”. Bateram à porta, e uma senhora desconhecida entregou a Frei Cirilo um bom donativo. O prior, entretanto, deu-lhe só meio florim para a restauração, dizendo-lhe que tinha que bastar. À insignificante importância somou-se logo generoso donativo de Daniel Wolf, funcionário da corte agraciado pelo Menino Jesus.

A imagenzinha foi assim restaurada e colocada dentro de uma urna de cristal próxima à sacristia. Cumpria-se assim o desejo expresso por Nossa Senhora a Frei Cirilo, de que o Menino fosse exposto à veneração pública.

Cura miraculosa e aumento do culto do Menino Jesus de Praga

Um fato inesperado iria ter muita influência no culto ao Pequeno Rei. Certo dia, em 1639, Frei Cirilo, tido já por muitos como um santo, foi procurado pelo Conde de Kolowrat, Enrique Liebsteinski, cuja esposa estava gravemente doente. O Conde pediu ao carmelita que levasse a imagem do Menino Jesus à cabeceira da enferma, alegando que esta era prima da Princesa Polyxena, que havia doado a imagem ao Convento. Como vários médicos já a haviam desenganado, a única esperança que restava era o Santo Menino.

Frei Cirilo não podia deixar de atender tão justo pedido. Chegando ao quarto da moribunda, disse-lhe o marido: “Querida, abre os olhos. Vê, aqui está o Menino Jesus para curar-te”. Com muito esforço a enferma abriu os olhos, seu rosto iluminou-se, e ela exclamou: “Oh! O Menino está aqui no meu quarto!” E ergueu os braços para ele, a fim de osculá-lo. Vendo isso, o marido exclamou exultante: “Milagre! Milagre! Minha mulher está salva!”

A alegria foi geral. Apenas restabelecida, a condessa foi ao convento e ofereceu ao Menino uma coroa de ouro e objetos preciosos em sinal de gratidão. Este foi um dos milagres mais célebres atribuídos ao Pequeno Rei.

Tornado conhecido esse prodígio, é natural que sua fama começasse a disseminar-se não só na corte, mas também entre o povo da cidade e redondezas. E diante do altar do Menino Deus começaram a afluir, cada vez em maior número, peregrinos de todas as partes.

Isso fez com que uma rica dama da corte, levada por devoção indiscreta, furtasse a imagem. Mas esse sacrilégio foi castigado por Deus, e o Pequeno Rei retornou aos carmelitas.

As muitas doações em dinheiro e em espécie, com as quais os fiéis agradeciam graças recebidas do Divino Infante, tornaram possível construir a capela destinada à milagrosa imagem. Para sua solene consagração, em 1648, foi convidado o Arcebispo de Praga, Cardeal Ernesto Adalberto de Harrach, que concedeu aos frades a mais ampla faculdade de celebrar missa nessa ermida do Santo Menino Jesus. Com essa solene confirmação do Arcebispo, a capela do Pequeno Rei da Paz converteu-se num lugar de culto oficial e muito freqüentado.

Novas provações, altar definitivo

Novamente em 1648, em outra batalha durante a Guerra dos Trinta Anos, as tropas dos protestantes suecos invadiram a cidade e transformaram o convento carmelita em hospital de campo. Mas nenhum dos 160 soldados feridos ali tratados atreveu-se a escarnecer do Santo Menino. Pelo contrário, o próprio comandante dos invasores, o General Konigsmark, durante uma inspeção, prostrou-se diante da milagrosa imagem, dizendo: “Ó Menino Jesus! Não sou católico, mas também creio em tua infância e estou impressionado ao ver a fé das pessoas e os milagres que fazes em seu favor. Eu te prometo que, no que me for possível, farei levantar o aquartelamento do convento”. E entregou aos frades um donativo de 30 ducados.

Pouco depois os suecos levantaram o assédio de Praga, e todos atribuíram a libertação à proteção do Pequeno Rei.

Confirmação e expansão do culto

Com a volta à normalidade, chegou a Praga em 1651 o Superior Geral dos Carmelitas, Frei Francisco do Santíssimo Sacramento, que aprovou a devoção do Divino Infante, recomendando aos frades que a difundissem pelos outros conventos austríacos e entre os fiéis. Deixou escrita uma carta, reconhecendo a legitimidade do culto à sagrada imagenzinha, que foi afixada na porta da capela do Menino Jesus.

Em 1655, graças à contribuição do Barão de Tallembert, a milagrosa imagem foi colocada em magnífico altar na igreja de Santa Maria da Vitória e solenemente coroada pelo Arcebispo de Praga, D. José de Corti. Ainda hoje se celebra uma festa solene no dia da Ascensão, em lembrança dessa coroação.

No ano de 1675, Frei Cirilo da Mãe de Deus entregou sua alma a Deus em odor de santidade, aos 85 anos de idade.

A devoção ao Divino Menino continuou alastrando-se por todas as camadas sociais. A grande imperatriz do Império Austro-Húngaro, Maria Teresa, quis confeccionar em 1743, com suas próprias mãos, uma rica veste para o Pequeno Rei.

Imagem preservada durante tiranias nazista e comunista

Em 1744, mais uma vez as tropas dos protestantes, agora prussianos, cercavam Praga. As autoridades da cidade acorreram ao convento dos carmelitas, pedindo ao prior que o Pequeno Rei fosse levado em procissão solene pela cidade, a fim de a livrar da destruição dos hereges.E realmente chegou-se a uma capitulação honrosa, sem batalhas; poucos meses depois os prussianos deixaram Praga, e todos seus comovidos habitantes acorreram à igreja de Nossa Senhora da Vitória para agradecer ao Menino Jesus mais essa graça.

Entretanto, outro perigo maior ameaçava a devoção ao Divino Infante. Em 1784, o ímpio Imperador José II suprimiu o convento dos carmelitas e confiou a igreja de Nossa Senhora da Vitória à Ordem de Malta. E assim, sem a assistência contínua dos carmelitas, o culto ao Menino Jesus decaiu.

Já no século XX, durante a II Guerra Mundial, houve a ocupação de Praga pelos nazistas, e depois o flagelo comunista abateu-se sobre o país durante quase 50 anos. Mas nem um nem outro inimigo da fé católica atentou contra a milagrosa imagem, que continuou em seu trono na igreja de Nossa Senhora da Vitória.

De Praga, o culto ao Menino Jesus já se havia estendido por toda a Europa, e daí para a América Latina (inclusive Brasil), Índia e Estados Unidos. Neste país, isso se deu graças à devoção de Santa Francisca Xavier Cabrini, que ordenou a entronização, em cada uma das casas do instituto por ela fundado, de uma imagem do Pequeno Rei.

Devoção expande-se a Arenzano

Em 1895, os carmelitas de Milão pediram ao Cardeal Ferrari licença para introduzir a devoção ao Menino Jesus de Praga em sua igreja de Corpus Domini. O Cardeal não só autorizou a entronização, mas quis ele mesmo fazê-la em presença de três mil fiéis. Na ocasião, consagrou todas as crianças de Milão ao Menino Jesus de Praga.

A partir de então, essa devoção conquistou o coração dos italianos.

No convento carmelita de Arenzano, fundado em 1889 pelo irmão do fundador de Corpus Domini, surgiu a idéia de se expor um quadro representando o Menino Jesus de Praga na igreja do convento. Os habitantes da cidade logo se mostraram muito sensíveis ao novo culto, e o Pequeno Rei atendeu suas orações e pedidos com muitas graças e bênçãos.

No ano de 1902, para substituir o quadro, a Marquesa Delfina Gavotti, de Savona, presenteou os frades com uma imagenzinha do Menino, cópia exata da de Praga. A enorme afluência dos fiéis ante o altar do Menino Jesus convenceu os frades a construírem um santuário expressamente dedicado a Ele. A primeira pedra foi colocada em outubro de 1904, e quatro anos mais tarde o templo era solenemente consagrado.

O cronista do convento carmelita anotou então: “Para todos foi claro que só o culto à infância divina, venerada com o título do Santo Menino Jesus de Praga, deu origem, desenvolvimento e feliz final à nossa empresa de construir esta igreja, para que fosse para os fiéis de toda Itália o centro propulsor desta devoção”.

No dia 7 de setembro de 1924, Sua Santidade o Papa Pio XI enviou especialmente o Cardeal Merry del Val para coroar solenemente a sagrada imagem. Assim, a devoção ao Menino Jesus de Praga recebia a aprovação oficial da Igreja.

Em Praga: proibição do culto pelos comunistas

Enquanto em Arenzano florescia a devoção, em Praga, transformada em capital da então Checoslováquia, o regime comunista impedia o livre exercício de culto, propugnando o ateísmo do Estado. Em 1968, uma tentativa de livrar-se do regime ímpio foi sufocada com sangue na chamada Primavera de Praga.

A devoção ao Menino Jesus continuava restrita aos que freqüentavam a igreja onde estava exposto, e também ao fruto do apostolado das monjas carmelitas que, deportadas para longe de Praga, pintavam estampas com o Santo Menino e as enviavam clandestinamente a outros conventos europeus.

Finalmente, em 1989, com a queda do Muro de Berlim, e depois, com a Revolução do Veludo, cessou a ditadura comunista na Checoslováquia, que se transformou na República Checa, independente e soberana. Foi restabelecida a liberdade civil e religiosa, e o novo Arcebispo de Praga, que fora também vítima da repressão comunista, quis que reflorescesse a devoção ao Menino Jesus. A convite dele, dois frades carmelitas, justamente de Arenzano, foram para Praga reabrir o convento e estimular a devoção ao Divino Menino Jesus.

Notas:
1. Este artigo foi baseado na excelente obra El Pequeño Rey, de Sorella Giovanna della Croce, C.S.C, tradução do italiano para o castelhano pelo Pe. Juan Montero Aparício, AGAM, Madonna dell’Olmo, Cuneo, Italia.
2. Vide, por exemplo, suas Homilías sobre el año litúrgico, BAC, Madrid, 1969, pp. 99 ss.
3. Cfr. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo 15, p. 379.
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Maria: da obscuridade inicial a uma crescente glorificação através da História

Madonna e Menino Jesus com Anjos e Santos

Maria: da obscuridade inicial a uma crescente glorificação através da História

A Santíssima Virgem, por humildade, procurou durante a sua vida a obscuridade, sendo esta necessária também para velar sua excelsa beleza e seu esplendor. A devoção a Nossa Senhora foi sendo progressivamente explicitada pelos teólogos e pelo povo fiel ao longo dos séculos.
No dia 25 de março de 1646, Portugal foi solenemente consagrado a Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, pelo Rei Dom João IV, acompanhado pelas Cortes Gerais do Reino.

Desde então o Brasil, parte integrante do império luso, viu-se colocado sob o especial patrocínio da Imaculada Conceição.

Esse patrocínio de certa forma prossegue até hoje, pois após a emancipação política de nossa terra, em 1822, foi também à Virgem Imaculada, com o título de Aparecida, que o Brasil quis se consagrar.

Quando Portugal se consagrou em 1646 a Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Rainha e Padroeira de Portugal, cuja imagem figura em nossa capa, ainda estava longe de ser aceita em toda a Igreja o ensinamento de que a Santíssima Virgem fora concebida sem pecado original, o que em 1854 Pio IX definiria como dogma de Fé.

Na realidade, a explicitação do dogma da Imaculada Conceição foi fruto de um lento e gradativo processo do qual participaram, cada qual a seu modo, Papas, Santos, Doutores e até os simples fiéis.

Diz São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716), o grande Doutor marial dos tempos modernos, que Nossa Senhora obteve de Deus a graça de permanecer oculta ao longo de toda a sua vida terrena, e tão oculta que nem sequer os Evangelhos falaram muito dEla (1).

Isso correspondia, sem dúvida, a um desejo do humílimo Coração de Maria, que Deus se comprouve em atender. Mas correspondia também a uma necessidade. Pois naqueles tempos remotos, muitos espíritos embrutecidos pelo politeísmo geralmente dominante, se vissem Nossa Senhora em todo o seu esplendor, facilmente seriam tentados a fazer d’Ela uma deusa, afastando-se assim da verdadeira crença num só Deus Uno e Trino, Todo-Poderoso, criador de todas as coisas.

E não era pequeno esse risco, pois na ordem da graça, mas também na ordem da natureza, Maria foi a obra prima do Criador, apenas superada pelo Homem-Deus.

Nossa Senhora tinha uma distinção extraordinária. Princesa da Casa Real de David, foi nobilíssima. Possuía, ademais, um corpo perfeitíssimo e uma beleza física deslumbrante. O maravilhoso, observa São Boaventura (2), é que tendo Ela uma beleza tão deslumbrante, nunca foi desejada por homem algum.

O porquê dessa maravilha é explicado por Dionísio Cartuxo ao comentar a expressão da Escritura “como lírio entre espinhos“: ”

Ainda que tenham existido muitas virgens santas, sem embargo em relação à Virgem é como se fossem espinhos, já que tinham em si algo de culpa; e ainda que fossem pessoalmente puras, a concupiscência, entretanto, não estava completamente extinta nelas, e foram também espinhos para outros, que ao vê-las se sentiam excitados pelo desejo.

Mas a Virgem Mãe de Deus foi completamente livre de toda a culpa; a concupiscência foi inteiramente extinta nEla; e viveu tão plena de intensa castidade, e de tal maneira penetrou com essa sua incomparável virtude os corações dos que a olhavam, que não pôde ser desejada por nenhum; antes pelo contrário extinguia imediatamente neles todo desejo carnal” (3).

O mesmo ensinou Santo Tomás de Aquino: “A graça da santificação não só reprimiu na Virgem os movimentos ilícitos, mas também nos outros obrou com plena eficácia, de modo que mesmo sendo formosa de corpo, ninguém a desejasse” (4).

Virgem pura, e única Imaculada — escreveu São Tomás de Vilanova — em quem a virgindade teve a nota distintiva de tornar virgens os que a olhavam, pois a sua virgindade era tal que engendrava virgens” (5).

Brilho singular na face

A par da extraordinária beleza física, Nossa Senhora deve ter tido no rosto um singular brilho, no sentido próprio do termo. Narra a Escritura que Moisés, depois de ter conversado com o Senhor, adquiriu no rosto um tal fulgor que os hebreus não conseguiam olhá-lo de frente, e para falar com ele precisaram cobrir-lhe o rosto com um véu (6). Privilégio semelhante tiveram muitos santos, cujos rostos, depois de terem tido algum contato especial com o sobrenatural, brilhavam e resplandeciam.

Um privilégio desses não poderia deixar de ser concedido a Nossa Senhora, que não apenas teve contatos fugazes com Deus, mas era a própria Mãe de Deus, que levara em seu seio, durante nove meses, o próprio Verbo encarnado, e com Ele convivera intimamente durante 30 anos. Mais uma vez, cabe citar Dionísio Cartuxo:

Quanto mais a amabilíssima e gloriosíssima Virgem Maria, ainda menina e adolescente, foi objeto das mais abundantes infusões de todos os carismas, tanto mais essa mesma exuberância resplandecia em seu rosto e em seu olhar; e quanto mais abundantemente e melhor aproveitava a cada dia em toda a graça e virtude, em toda a luz da contemplação, na claridade da teologia mística, na pureza interna e na santidade angélica, tanto mais aquela luminosa sinceridade interior celestial e divina aparecia claramente na face da sacratíssima Maria, e, como dizem também grandes doutores, visivelmente se irradiava. Parece-me, entretanto, que essa radiação foi temperada pela moderação divina, para que fosse suportável no trato com os homens, e para que sua excelência não se manifestasse demasiado antes do tempo oportuno” (7).

Esplendor velado

Vemos assim que, segundo o Cartuxo Dionísio, o próprio Deus parece ter querido fazer, em relação a Nossa Senhora, o que fizeram os hebreus em relação a Moisés: pôr um véu que velasse tanto resplendor. Não, porém, a ponto de ocultá-lo inteiramente. Quem tratava com Nossa Senhora devia ficar literalmente fascinado pela sua personalidade ímpar.

Ora, naqueles tempos os pagãos embrutecidos facilmente concediam honras e culto de deuses a simples homens carregados de defeitos morais, como tantos imperadores romanos, e até mesmo a animais e a coisas indignas. Basta lembrar que em Roma era cultuada como deusa a cloaca máxima, ou seja, o grande esgoto que despejava no Tibre todas as imundícies da cidade!

Era, pois, muito grande o risco de que, se vissem Nossa Senhora em todo o seu esplendor, tomassem-nA por uma deusa (8). Daí o ter querido o próprio Deus velá-La cuidadosamente nas Escrituras, como escondida foi Ela em sua vida terrena.

Segundo o célebre Fr. Tomé de Jesus, Maria Santíssimia “até no exterior mostrava uma tão soberana perfeição, que São Dionísio Areopagita diz que, se a Fé não lhe tivera ensinado que havia um só Deus, quando viu a Virgem Nossa Senhora cuidara julgado que nEla estava acabada a divindade” (8).

“Revelação progressiva” de Maria

Deus ocultou a Santíssima Virgem durante sua vida terrena, mas reservou para Ela uma forma muito peculiar de glorificação posterior. Ele quis que, ao longo dos séculos, a Igreja fosse pouco a pouco explicitando as glórias e as grandezas de Maria, mais ou menos implicitamente contidas nas Escrituras, mais ou menos explicitamente formuladas pela Tradição.

Essa como que “revelação progressiva” de Maria diante de toda a Igreja é um dos mais belos aspectos do progresso da ciência teológica. É razoável supor que no fim dos tempos, quando Nosso Senhor voltar com glória à Terra para julgar os vivos e os mortos, a essa altura tenha a Igreja concluído — tanto quanto neste mundo é possível concluir — o imenso trabalho de muitos séculos de explicitação das glórias mariais.

Alguém poderia objetar que essa “revelação progressiva” de Maria parece chocar-se com o fato — que é de Fé — que a Revelação oficial se encerrou com a morte do último Apóstolo.

Na realidade, o progresso da Mariologia, como o progresso da Teologia em geral, não se trata de uma revelação nova, mas trata-se de um desenvolvimento, de uma elaboração do intelecto humano, ajudado pela graça, a partir de verdades que já estavam contidas, embora menos explicitamente, na Revelação oficial encerrada no século I.

Duas vertentes de explicitação

Esse esforço multissecular de explicitação das grandezas mariais tem duas vertentes que, embora na aparência se contraponham entre si, na realidade se completam harmoniosamente: de um lado, a elite intelectual da Igreja, de outro, o bom povinho de Deus.

Compete aos teólogos, aos doutores, aos estudiosos da ciência mariológica, seguindo metodologia científica, aplicar seu esforço intelectual e procurar, a partir da Revelação, da Tradição, do Magistério da Igreja, deduzir verdades, de modo a constituir todo um arcabouço doutrinário lógico e coerente.

Como é próprio do cientista questionar, a priori e por método, tudo quanto aparece de novo na área de seus estudos, muitas vezes esses estudiosos da ciência mariológica examinam com espírito crítico certas manifestações populares espontâneas de amor e devoção para com Nossa Senhora. O que para um católico fervoroso comum, sem grandes luzes intelectuais, pode parecer evidentemente verdadeiro, nem sempre é suficiente para contentar o exigente intelectual.

Ao bom povinho de Deus, que muitas vezes intui certas realidades de ordem sobrenatural sem entretanto saber explicá-las (e, mesmo, sem sentir qualquer necessidade de explicá-las), a atitude reservada do teólogo pode parecer fria, pouco fervorosa, até suspeita.

Ambas as vertentes podem sem dúvida pecar por excesso: de um lado, cair-se na credulidade infantil e pouco esclarecida; de outro, no espírito ácido e hiper-crítico.

Curiosamente, se observarmos ao longo da História da Igreja o processo de explicitação de certos dogmas — e especificamente o da Imaculada Conceição — veremos que ambas as vertentes, a popular e a douta, embora tenham até certo ponto se entrechocado, na realidade colaboraram intimamente entre si. Numa como noutra trabalhava a graça de Deus. E o resultado dessa colaboração só se pôde admirar convenientemente quando se pronunciou, definitiva e infalivelmente, o Supremo Magistério da Igreja.

Essa feliz colaboração das duas vertentes aparentemente opostas e conflitantes, soube apanhá-la com felicidade o Papa Paulo VI, quando, falando em 16 de maio de 1975 aos participantes do VII Congresso Mariológico Internacional e aos participantes do XIV Congresso Mariano Internacional, lhes explicava como se deve apresentar Nossa Senhora aos homens de nosso tempo:

Duas vias podem ser seguidas. A via da verdade, antes de tudo, ou seja, a da especulação bíblico-histórico-teológica, que concerne à exata colocação de Maria no mistério de Cristo e da Igreja: é a via dos doutos, aquela que vós seguis, certamente necessária, pela qual progride a doutrina mariológica. Mas além dessa há também outra, uma via acessível a todos, até mesmo às almas simples: é a via da beleza, para a qual conduz, afinal, a doutrina misteriosa, maravilhosa e estupenda que constitui o tema do congresso mariano: Maria e o Espírito Santo. Com efeito, Maria é a criatura tota pulchra; é o speculum sine macula; é o ideal supremo de perfeição que em todos os tempos os artistas procuraram reproduzir em suas obras; é a mulher vestida de sol (Ap. 12, 1), na qual os raios puríssimos da beleza humana se encontram com os sobre-humanos, mas acessíveis, da beleza sobrenatural” (9).

_____________
Notas:
(1) Cfr. Traité de la Vraie Dévotion à la Sainte Vierge, Librairie Monfortaine, 11ª ed. canadense, Québec, 1946, pp. 1-2.
(2) Cônego Gregorio Alastruey, Tratado de la Virgen Santísima, BAC, 3ª ed., Madrid, 1952, p. 442.
(3) In Cantic. 2, apud Alastruey, op. cit., p. 441.
(4) In 3 Sent., d. 2, q. 1, a. 2.
(5) Sermo 2 De Annunt., apud Alastruey, pp. 442-443.
(6) Cfr. Ex 34, 29-35.
(7) De laud. glor. Virg. Mariae, I, 30, apud Alastruey, p. 441.
(8) Trabalhos de Jesus, I, Lisboa, 1666, 82b apud Pe. João Ferreira, O.F.M., A Teologia Mariana Portuguesa — o contributo nacional português para a evolução da Mariologia, in A Virgem e Portugal, Edições Ouro, Porto, 1967, vol. I, p. 419.
(9) Discurso de encerramento do VII Congresso Mariológico e início do XIV Congresso Mariano, Roma, 16-5-1975, apudNuovo Dizionario di Mariologia, Edizioni Paoline, Torino, 1985, pp. 224 e 230. Stefano De Fiores e Salvatore Meo,
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O amor de Santa Tereza aos Reis

Santa Tereza de Jesus

O amor de Santa Tereza aos Reis

Não há quem possa viver no meio de tantos enredos, especialmente se intervém algum interesse. Bem-aventurada a alma que o Senhor eleva ao conhecimento da Verdade. Oh! que estado este, para os reis! Como lhes valeria muito mais procurá-lo do que ter grande poderio! Que retidão haveria no reino! Que multidão de males se evitariam no presente e se teriam evitado nos tempos idos! Não se teme, então, perder a vida nem a honra por amor de Deus! Que grande bem este para aqueles que, sendo reis, a quem todos hão de seguir, mais do que ninguém estão obrigados a zelar a honra do Senhor! Por dilatar um pouco a fé e dar alguma luz aos hereges, perderiam mil reinos, e com razão, pois se trataria de maior ganho, qual o dum reino infindável. A alma, com o gozo duma só gota da água que há por lá, sente asco de tudo que existe na terra. Que será quando de todo estiver nela engolfada?

Senhor! Se me désseis estado e poder para clamar a todos estas verdades, não me creriam, como não crêem quando dito por muitos que o sabem dizer melhor do que eu. Porém, ao menos me sentiria satisfeita. Parece-me que teria em pouca monta a vida, se à custa dela pudesse dar a entender uma só destas verdades. Não sei depois como faria, pois não há que fiar de mim. Contudo, sendo eu quem sou, tenho tão grandes ímpetos de dizer isto aos que governam, que me sinto consumida. Vendo que nada posso, torno-me a Vós, Senhor meu, a pedir-vos remédio para tudo. E bem sabeis que, desde que nisso não vos ofendesse, de muito bom grado me despojaria das mercês que me tendes feito e as daria aos reis, porque sei que lhes seria impossível consentir no que agora toleram, e daí resultariam grandíssimos bens.

Deus meu, dai-lhes a entender a que estão obrigados, pois de tal maneira quisestes distingui-los na terra, que segundo tenho ouvido aparecem sinais no céu quando desta vida levais algum deles. Sinto-me, na verdade, enternecida ao pensar, Rei meu, que até nessas demonstrações que de algum modo há no céu por ocasião da sua morte, como houve na vossa, quereis que entendam deverem imitar-vos na vida. Atrevo-me a muito. Rasgue Vossa Mercê (seu confessor) o que digo, se lhe parecer mal, e creia que melhor o diria em presença dos próprios reis, caso pudesse fazê-lo e esperasse merecer crédito, porque os encomendo muito a Deus, e quisera que fosse com proveito. Seria aventurar a vida, mas desejo muitas vezes estar sem ela; e seria arriscar pouco para ganhar muito, pois já não se pode viver, vendo a olhos vistos o grande engano em que andamos e a cegueira que razemos.

Chegada a alma aqui (4º grau da oração), não tem só desejos da glória de Deus: dá-lhe Sua Majestade forças para os realizar. Não se lhe oferece empreendimento que não se abalance a acometer, se o julga do serviço do Senhor; e nada faz, porque como digo vê claramente que, fora de contentar a Deus, tudo é sem valor. O que realmente custa é não se apresentarem ocasiões de Lhe ser agradável, a quem é tão balda de préstimo como eu.

Sede servido, Bem meu, que venha tempo em que vos possa pagar algum ceitil do muito que vos devo. Ordenai, Senhor, como vos aprouver, contanto que esta vossa serva de algum modo vos sirva. Mulheres eram também outras, e no entanto fizeram coisas heróicas por amor de Vós. Quanto a mim, sirvo apenas para tagarelar, e por isso não quereis, Deus meu, ocupar-me em obras. Reduz-se todo meu serviço a palavras e a desejos de fazer muito. Mesmo para isto não tenho liberdade, e se porventura tivesse, cometeria faltas em tudo. Fortalecei minha alma, disponde-a primeiro ó Bem de todos os bens! ó Jesus meu! e ordenai logo ensejos e meios de fazer eu alguma coisa por Vós, pois já não há quem suporte receber tanto sem nada pagar. Custe o que custar, Senhor, não queirais que me apresente diante de Vós com as mãos tão vazias, pois de acordo com as obras se há de dar o prêmio.

Eis aqui minha vida, eis aqui minha honra e minha vontade; tudo já vos dei; sou vossa; disponde de mim como quiserdes. Bem vejo, meu Senhor, o pouco de que sou capaz. Chegada a Vós, do alto dessa atalaia donde se descortinam as verdades, se não vos apartardes de mim tudo poderei; mas apartando-vos, por pouco que seja, irei para o inferno, lugar onde estava.
(Santa Tereza de Jesus, “Livro da Vida” – Vozes, Petrópolis, 1961)
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O Batismo; em quadro do século XVIII representando esse Sacramento, nota-se mescla de pompa, ostentação de elegância e restos de espírito sacral

O Batismo, clique na foto para ver os detalhes numerados descritos nesta matéria.

O Batismo; em quadro do século XVIII representando esse Sacramento, nota-se mescla de pompa, ostentação de elegância e restos de espírito sacral

Na igreja que figura neste quadro, embora seja ela renascentista, predomina uma atmosfera representada pela meia luz.

O batistério à direita, com todo seu esplendor escultural, dá bem a idéia da glória do batismo.

O soalho, muito polido, reflete luzes indefinidas.

As pessoas que vamos analisar apresentam atitudes dignas. Todos seus gestos são nobres, elegantes, distintos, indicando que elas compreendem que estão num lugar de respeito, assistindo a uma cerimônia pomposa, que exige delas toda compostura.

Esta senhora, cuja atitude parece o contrário da pompa — porque muito embevecida com a criança que a madrinha está apresentando ao Padre para ser batizada –, mesmo nessa atitude, tem uma dignidade perfeita (detalhe 1). Com que elegância ela segura a saia. As dobras ficam quase mais bonitas assim do que se ela não as estivesse segurando. Com que leveza a mão pega o tecido, sem o amassar. Sua mão e seu braço ficam bonitos. Instintivamente ela estudou tudo para ficar belo, porque é uma senhora tão educada, que não faz um gesto despreocupado que não seja belo.

Este homem está de pé numa posição natural, mas denota certa elegância e distinção (detalhe 2).

Este casal — que evidentemente é de parentes mais distantes ou de amigos que têm menos a ver com a cerimônia — colocou-se mais longe da cena, compreendendo que não ficaria bem, sendo estranho à família, estar lá pelo meio (detalhe 3). Mas tanto ele quanto ela assume uma posição de quem compreende que participa de algo importante.

Esta outra senhora está um mimo. Vestida de branco — uma vez que a cerimônia batismal exprime candura — mas um branco meio prateado, de alta classe. Rendas magníficas que esvoaçam; e o esvoaçar tem uma distinção enorme no traje feminino (detalhe 4).

Esta terceira senhora está portando a criança de acordo com os mesmos princípios da escola estética com que a outra segura o vestido (detalhe 5). Não se tem a impressão de que ela está fazendo força. Nada é mais feio do que uma madrinha que lute a duras penas para segurar o bebê. Ridiculariza a cerimônia! Ela, não. Tem-se a impressão de que a criança é peso pluma para ela.

Em resumo, podemos dizer que o conjunto da cena reflete uma atmosfera de pompa, ostentação de elegância ou faceirice, com uma nota sacral. Pompa e faceirice são muito maiores do que a nota de sacralidade, isto é, nota voltada para os aspectos veneráveis e santos de tudo aquilo que se relaciona diretamente com Deus, como, por exemplo, o Sacramento do Batismo e o interior de uma igreja católica. A sacralidade transparece na cerimônia como um resto, notando-se aquela muito mais nos objetos e na luz da igreja do que nas pessoas. Estas assumem atitudes nobres e distintas muito mais por faceirice e por senso estético do que movidas por uma preocupação de caráter sacral.

Clique na foto para ver os detalhes numerados descritos nesta matéria.
(Por Plinio Corrêa de Oliveira)
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São Pio X, um dos maiores Pontífices de todos os tempos

São Pio X, um dos maiores Papas de todos os tempos

São Pio X, um dos maiores Pontífices de todos os tempos

Em 4 de agosto de 1903, o Cardeal Giuseppe Sarto foi eleito para o Sumo Pontificado, como sucessor de São Pedro, sendo coroado a 9 do mesmo mês. São Pio X, um dos maiores Pontífices de todos os tempos, foi o único Papa canonizado no século XX.

Nos primórdios do século XX, no mundo inteiro pipocavam revoluções de cunho anarquista, visando abalar as últimas colunas que restavam da Civilização Cristã.

E na Santa Igreja a situação não era menos grave. Verdadeiras heresias, infiltradas nos meios católicos, minavam os fundamentos da Igreja duas vezes milenar. Compelida a combater os inimigos externos, a Igreja estava sendo corroída também por inimigos internos, principalmente pela conspiração organizada pelo movimento então denominado modernista — precursor do progressismo católico de nossos dias.

Nessa terrificante encruzilhada, morre o Papa Leão XIII, a 20 de julho de 1903.
Urgia, em vista desse quadro, o aparecimento de um providencial defensor da Igreja e da Cristandade. A Divina Providência suscitou então um Papa Santo, dotado de extraordinária grandeza de alma.

Eleição e coroação de São Pio X

Transcorridos os 11 dias de orações, prescritos para sufrágio da alma do Papa Leão XIII, recém-falecido, os cardeais da Santa Igreja (em número de 62, na época) iniciaram o Conclave — reunião do Colégio cardinalício com o objetivo de eleger o novo Papa.

Os primeiros escrutínios indicavam a escolha do Cardeal Rampolla — que fora colaborador direto de Leão XIII. Mas no dia 1º de agosto foi comunicado aos cardeais, no Conclave, o veto do Imperador da Áustria, Francisco José. Veto que, segundo uma tradição, poderia ser exercido pelo Imperador austríaco.

Devido a isso, o Cardeal Giuseppe Sarto, de Veneza, passou a ser o preferido. Entretanto, num exercício de autêntica humildade, pedia aos cardeais que nele não votassem. Mas ele era o escolhido também pela Divina Providência. No sétimo turno da votação, o Cardeal Sarto, por insistência de vários de seus pares no Sacro Colégio, acabou aceitando e foi eleito o 259º sucessor de São Pedro, por 50 votos a seu favor, no dia 4 de agosto de 1903.

O Cardeal Sarto, de cabeça baixa, ouviu o resultado do sufrágio. Segundo o costume, aproximou-se dele o Cardeal Decano e perguntou-lhe se aceitaria ou não a eleição à Sede Pontifícia.

Com os olhos banhados em lágrimas, e a exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, respondeu: “Se não for possível afastar de mim esse cálice, que se faça a vontade de Deus. Aceito o Pontificado como uma cruz”.(1)

Após cinco dias, teve lugar a grandiosa cerimônia de coroação do sucessor de São Pedro, para a glória da Santa Igreja.

Magníficas obras pela restauração da Cristandade

O glorioso, árduo e fecundo pontificado desse Vigário de Cristo durou 11 anos. Nesse período, foram lançados mais de 3.000 documentos oficiais, com o objetivo de Instaurare omnia in Christo — conforme seu lema. E tem estreita analogia com esta sua afirmação: “Se alguém pedir uma palavra de ordem, sempre daremos esta e não outra: Restaurar todas as coisas em Cristo”.(2)

Nesse sentido de restaurar todas as coisas em Cristo, foram numerosas e admiráveis as obras empreendidas pelo Santo Pontífice para defender a Civilização Cristã gravemente ameaçada.

Em seu esplêndido livro de memórias, o Cardeal Merry del Val, Secretário de Estado de São Pio X, enumera de passagem algumas dessas obras:

“A reforma da Cúria Romana; a fundação do Instituto Bíblico; a construção de seminários centrais e a promulgação de leis para a melhor disciplina do clero; a nova disciplina referente à primeira comunhão e à comunhão freqüente; o restabelecimento da música sacra; a vigorosa resistência movida contra os fatais erros do chamado modernismo e a corajosa defesa da liberdade da Igreja na França, Alemanha, Portugal, Rússia e outros países, sem aludir a outros atos de governo, justificam certamente que Pio X tenha sido destacado como um grande Pontífice e um diretor humano excepcional. Posso testemunhar que todo esse enorme trabalho foi devido principalmente e — muitas vezes — exclusivamente à sua própria idéia e iniciativa. A História haverá de proclamá-lo como algo mais que um Papa cuja bondade ninguém seria capaz de discutir.

Os limites que me impus ao traçar estas breves Memórias me impedem de entrar a fundo no estudo das diversas e importantes questões a que mais acima me referi; mas há uma delas cuja importância creio merecer especial atenção neste curto relato, e esta é a compilação do novo Código de Direito Canônico”.(3)

O Cardeal, fidelíssimo Secretário de Estado de São Pio X, passa a narrar o intenso trabalho do Santo Padre para reorganizar e aprimorar o novo Código, uma vez que o anterior era um emaranhando confuso, uma legislação que se prestava a diversas interpretações. Foram 11 anos de trabalho quase ininterrupto, mas ao cabo dos quais a admirável codificação ficou praticamente pronta nos últimos dias de São Pio X, em 1914. Seu sucessor, Bento XV, rendeu-lhe uma merecida homenagem, promulgando o novo Código elaborado por seu augusto predecessor.

Mansidão do cordeiro, força do leão

Uma palavra a respeito de uma característica em que se destacou no mais alto grau São Pio X: sua extrema bondade, ao lado de uma indomável energia. Sobre isso, nada melhor que darmos a palavra a quem o conheceu mais de perto, e devotadamente o serviu por 11 anos — seu próprio Secretário de Estado, o Cardeal Merry del Val:

“Seria um grande erro crer que esta característica [a bondade] tão atraente de Pio X o retratasse plenamente ou resumisse seus dotes e qualidades; nada mais longe da verdade. Ao lado dessa bondade, e de modo feliz combinada com a ternura de seu coração paternal, possuía uma indomável energia de caráter e uma força de vontade que podiam testemunhar, sem vacilação, os que realmente o conheceram, embora em mais de uma ocasião surpreendesse, e até causasse estranheza àqueles que somente haviam tido ocasião de experimentar sua delicadeza e reserva habituais.

Mantinha um absoluto senhorio de si e dominava os impulsos de seu ardente temperamento. Não vacilava em ceder em assuntos que não considerava essenciais, e até estava disposto a considerar e aceitar a opinião de outros se isso não implicasse em risco para algum princípio; mas não havia nele nenhuma debilidade.

Quando surgia alguma questão na qual se fazia necessário definir e manter os direitos e liberdade da Igreja, quando a pureza e integridade da verdade católica requeriam afirmação e defesa, ou era preciso sustentar a disciplina eclesiástica contra o relaxamento ou influência mundanas, Pio X revelava então toda a força e energia de seu caráter e o intrépido valor de um grande Pontífice consciente da responsabilidade de seu sagrado ministério e dos deveres que julgava ter que cumprir a todo custo.

Era inútil, em tais ocasiões, que alguém tratasse de dobrar sua constância; toda tentativa de intimidá-lo com ameaças, ou de afagá-lo com sedutores pretextos ou recursos meramente sentimentais, estava condenada ao fracasso”.(4)

A conjuração do movimento modernista

Esse santo varão, que derramava copiosas lágrimas considerando a paixão da Santa Igreja, era entretanto de uma severidade ímpar contra o mal. Depois de esgotar todos os recursos ao seu alcance para levar alguém à conversão, severamente condenava.
Estava sempre disposto a perdoar, por assim dizer, maternalmente. Mas se a pessoa persistisse no erro e, pior, procurasse contaminar outros com seus desvios, o Santo Papa a reprovava energicamente. Foi o que ocorreu quando condenou o movimento modernista — “síntese de todas as heresias”, conforme o definiu —, que se infiltrara sub-repticiamente nas próprias fileiras católicas, com a finalidade de modernizar, adaptar e deturpar inteiramente o ensinamento tradicional da Igreja.

Assim, o Santo Padre lançou várias advertências aos mentores desse movimento, os quais não as levaram em consideração, pois se obstinavam no mal e procuravam corromper outros membros da Igreja e até mesmo da alta Hierarquia eclesiástica. Publicou então sua estupenda Encíclica Pascendi Dominici Gregis, de 8 de setembro de 1907, fulminando o modernismo [Ver quadro ao lado]. Tal documento completava a condenação já expressa no Decreto Lamentabili Sane Exitu, de 3 de julho do mesmo ano.

O neomodernismo de nossos tempos

Como se pôde observar, vem de há muito a tentativa de infiltração no interior da Santa Igreja, por parte de inimigos velados ou declarados, a fim de “modernizar”, adaptar aos novos tempos e adulterar o Magistério tradicional e infalível da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Peçamos ao ínclito Papa São Pio X o discernimento, a argúcia, a energia e a combatividade que ele teve ao enfrentar destemidamente as raízes dos erros que, em nossos dias, professa o chamado progressismo católico, continuador do modernismo de sua época.

São Pio X condena o modernismo; “Os mais perigosos inimigos da Igreja”

“Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja. Estes, em verdade, como dissemos, não já fora, mas dentro da Igreja, tramam seus perniciosos desígnios; e por isto, é por assim dizer nas próprias veias e entranhas dela que se acha o perigo, tanto mais ruinoso quanto mais intimamente eles a conhecem.

Além de que, não sobre as ramagens e os brotos, mas sobre as mesmas raízes, que são a Fé e suas fibras mais vitais, é que meneiam eles o machado. Batida pois esta raiz da imortalidade, continuam a derramar o vírus por toda a árvore, de sorte que coisa alguma poupam da verdade católica, nenhuma verdade há que não intentem contaminar.

E ainda vão mais longe; pois, pondo em obra o sem número de seus maléficos ardis, não há quem os vença em manhas e astúcias, porquanto fazem promiscuamente o papel ora de racionalistas, ora de católicos, e isto com tal dissimulação, que arrastam sem dificuldade ao erro qualquer incauto; e sendo ousados como os que mais o são, não há conseqüências de que se amedrontem e que não aceitem com obstinação e sem escrúpulos (nº 3) […].

Já não se trata aqui do velho erro, que à natureza humana atribuía um quase direito à ordem sobrenatural. Vai-se muito mais longe ainda; chega-se até a afirmar [na doutrina modernista] que a nossa santíssima religião, no homem Jesus Cristo assim como em nós, é fruto inteiramente da natureza.

Nada pode vir mais a propósito para dar cabo de toda ordem sobrenatural” (nº 10). (Encíclica de São Pio X sobre as Doutrinas Modernistas, Pascendi Dominici Gregis, de 8-9-1907, Editora Vozes Ltda, Petrópolis, 1948, pp. 4-5; 10-11).

Foi beatificado em 1951 e canonizado em 3 de Setembro de 1954 por Pio XII. A Igreja celebra a sua memória litúrgica nos dias 21 de agosto e 3 de setembro. É o patrono dos que fazem a Primeira Comunhão e dos peregrinos.

Notas:
1 P. Girolamo Dal-Gal, Pio X il Papa Santo, Libreria Editrice Fiorentina, Firenze, 1940, p. 135.
2 Op. cit., p. 133.
3 Cardeal Rafael Merry del Val, Memorias del Papa Pio X, Sociedad de Educación Atenas, S.A., Madrid, 1946, pp. 103-105.
4 Op. cit., pp. 45-46.
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Nossa Senhora da Conceição da Escada; antiga devoção mariana popular de Portugal e do Brasil, ligada ao mar

Nossa Senhora da Conceição e uma escada que leva a Ela

Nossa Senhora da Conceição da Escada; antiga devoção mariana popular de Portugal e do Brasil, ligada ao mar

Não é de estranhar que, pela acentuada vocação marítima de Portugal, tenha sido a devoção dos marinheiros de Lisboa uma das mais populares no país, e, por essa razão, uma das primeiras a se implantar no Brasil.

Escada? Que nome estranho para designar uma devoção a Nossa Senhora, poderão pensar alguns ao ouvi-lo. Outros, mais eruditos, estabelecerão talvez um nexo com a escada de Jacó, narrada na Sagrada Escritura, pois o Patriarca sonhou com uma escada que levava ao Céu. De modo análogo, Nossa Senhora leva ao Céu, logo… E ainda outros, quiçá, relacionarão o nome com imagens da Paixão de Cristo, dado que, muitas vezes, Nossa Senhora aparece ao lado da escada utilizada para descer o corpo de seu Divino Filho da cruz.

O que ninguém consegue imaginar é a razão verdadeira da invocação Nossa Senhora da Conceição da Escada.

Na origem do nome, singeleza de circunstâncias naturais

Qualquer pessoa dotada de cultura básica conhece a enorme importância que tiveram as navegações e descobrimentos portugueses nos séculos XV e XVI, bem como o fato de terem sido os navegantes lusos que uniram, por via marítima, diversos continentes. E que tal epopéia ocorreu mediante viagens realizadas a bordo de navios que, se comparados aos de hoje, eram semelhantes a frágeis cascas de nozes.

Coragem não faltou aos navegantes daquela época. Também não faltou fé e fortaleza para correr todos os riscos. E tal fé dos marinheiros lusos encontrava uma expressão encantadora na devoção a Nossa Senhora da Conceição da Escada, na cidade de Lisboa.

A imagem original da Virgem Santíssima – que depois ficou conhecida sob essa invocação – é muito antiga, anterior à reconquista da cidade aos mouros, em 1147. Ela se encontrava em uma capela situada à margem do rio Tejo. Ao partir, os marinheiros encomendavam-lhe seus trabalhos, e agradeciam sua proteção ao voltar. Como a margem do rio é elevada, precisavam subir ou descer os 31 degraus que separam a capela do rio. Por isto, com a passar do tempo, a imagem de Nossa Senhora da Conceição começou a ser chamada de Conceição da Escada, para diferenciá-la de outras imagens de Nossa Senhora da Conceição (devoção muito difundida em Portugal). Desse fato resultou que a imagem passou a ser conhecida como Nossa Senhora da Escada.

Dada a importância que a vida ligada ao mar tinha para o povo português naquela época, é compreensível que a referida imagem fosse das mais veneradas. De onde se explica que, cada vez que se decidia a realização de procissões para celebrar tal ou qual vitória, ou pedir proteção contra este ou aquele flagelo, eram as procissões da capela de Nossa Senhora da Escada das mais concorridas.

Com o tempo, começaram a acorrer à capela pessoas em barcos de locais longínquos, a fim de cumprir promessas e votos, bem como agradecer favores recebidos. Numa determinada época, realizava-se uma procissão com tochas acesas, provavelmente à noite, que descia o rio até chegar à capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição da Escada.

Vitória de Aljubarrota fortalece devoção
A procissão mais importante, porém, era a que comemorava a vitória dos portugueses em Aljubarrota, no ano de 1385. As tropas portuguesas, comandadas pelo Venerável Nun’Álvares Pereira, lutavam não só para defender a independência do país, mas sobretudo para este não cair no cisma que ameaçava dividir a Cristandade, já que o Rei de Castela na ocasião apoiava um antipapa.

Após travarem a luta em condições de inferioridade numérica, os portugueses obtiveram memorável vitória. Ao ter notícia do triunfo, o povo acudiu em massa aos diversos santuários do país, e um dos mais concorridos foi o de Nossa Senhora da Escada, onde pessoas de todas as classes sociais se dirigiram para agradecer a Nossa Senhora a insigne proteção. Que tenham sido de todas as classes sociais não é de estranhar, pois à Marinha dedicavam-se representantes de todos os segmentos sociais da época. Desde os nobres mais elevados que comandavam as armadas com destino à África ou à Ásia, até os mais humildes servidores.

Devoção expande-se para Bahia e São Paulo

Com as descobertas marítimas que iam sendo feitas, a Fé católica ia se expandindo. Por isso, ao dominar novos territórios, uma das primeiras preocupações dos portugueses era ensinar as verdades da Fé aos habitantes do local. E nada melhor para consolidar uma alma no caminho da verdadeira Religião do que ensiná-la a amar e confiar nAquela que é a Mãe de Deus, e por isso mesmo, nossa advogada.

Como dois dos primeiros locais a serem colonizados em nosso País foram a Bahia de Todos os Santos e zonas na região próximas ao litoral de São Paulo, é compreensível que aí se encontrem as duas capelas dedicadas a Nossa Senhora da Escada.

A existente na Bahia apresenta uma característica muito antiga, da época da escravidão: os escravos, quando ainda não batizados, não podiam ficar dentro da Igreja, permanecendo num alpendre junto à entrada. É por isso que o pequeno templo possui um amplo alpendre.

A outra capela situava-se numa vila chamada Escada, nome este proveniente da própria invocação mariana. Tal capela está situada cerca de Guararema, cidade a 80 quilômetros da capital paulista. Devido à sua proximidade do rio Paraíba, essa vila era freqüentada tanto por pescadores como por viajantes que navegavam rumo ao Rio de Janeiro.

Quando passou por lá, em 1717, o Conde de Assumar, Governador de São Paulo, Escada era uma vila que já possuía sua própria Câmara Municipal. Mas o pequeno núcleo não prosperou, e com sua decadência também foi minguando a devoção mariana que lhe deu origem.

As devoções marianas não constituem, via de regra, um fruto artificial, ocasionado por algum interesse humano. Elas florescem naturalmente quando Nossa Senhora distribui suas graças, valendo-se, por exemplo, de uma imagem sob esta ou aquela invocação. E se o povo é verdadeiramente piedoso, costuma corresponder a essas graças, propaga-se naturalmente a devoção Àquela que o sustenta nas duras lutas da vida.

Quando, porém, a população decai em fervor e não mais invoca a Virgem Santíssima, as devoções ligadas a alguma capela ou imagem também por vezes decaem. As pessoas deixam de freqüentar o local, e vão se olvidando das graças recebidas. Nessas condições, não raro Nossa Senhora opera novo prodígio, a fim de reerguer a antiga devoção. Mas, infelizmente, nem sempre os homens correspondem à nova manifestação da bondade materna.

Dois terremotos e decadência da devoção

Foi o que aconteceu com a imagem de Nossa Senhora da Escada em Portugal. Em 1531 um terremoto destruiu a capela, que foi reedificada. Mas como a devoção continuava decaindo aos poucos, permitiu Nossa Senhora que novo terremoto em Lisboa, mais terrível que o anterior, destruísse o pequeno templo em 1755. Nos dois casos, os edifícios que abrigavam a imagem foram destruídos, salvando-se contudo, milagrosamente, entre as ruínas, tanto a efígie mariana como o altar em que ela se encontrava.

A decadência do culto a Nossa Senhora sob essa invocação havia chegado a tal ponto, que a capela da Escada não foi mais reconstruída. Por isso, a primitiva imagem foi levada para o templo de Nossa Senhora das Mercês em Lisboa, onde se encontra até hoje. Pareceria um triste fim de uma invocação mariana antes tão difundida.

Renascimento promissor

Entretanto, a devoção não morreu. Ela deitou raízes em nosso País, surgindo várias capelas a ela dedicadas, como a que foi edificada na vila da Escada, acima referida, no Estado de São Paulo, e anos atrás em Curitiba, no bairro Novo Mundo.

Peçamos à Mãe de Deus que este seja um sinal do revigoramento dessa bela devoção tão acendrada em nossos ancestrais lusos, especialmente os navegadores, que a trouxeram para a Terra de Santa Cruz.

Nossa Senhora da Conceição da Escada é a Padroeira da cidade de Barueri, cuja festa celebra-se em 21 de novembro.
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Fontes de referência:
– Edésia Aducci, Maria e seus gloriosos títulos, Editora Lar Católico, 1958, 1ª edição.
– Nilza Botelho Megale, Cento e doze invocações da Virgem Maria no Brasil, Ed. Vozes, 2ª edição, Petrópolis, 1986.
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Anunciação de Nossa Senhora

Anunciação de Nossa Senhora

Anunciação de Nossa Senhora Numa pequena casa da cidade de Nazaré, ocorreu o acontecimento mais importante da História da humanidade: a Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade no seio puríssimo de Maria. A Santa Igreja comemora esse transcendental acontecimento a 25 de março, precisamente nove meses antes do Natal.

O evangelista São Lucas narra o fato com simples palavras.

O valor da graça

Inclinando-se respeitosamente diante da Santíssima Virgem, o Arcanjo São Gabriel disse-lhe: “Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1, 28).

Consideremos as palavras: Cheia de graça. A menor das graças vale mais que todo o universo material. Pois a graça é a participação da vida divina. Se tivéssemos que escolher entre a menor das graças e todos os tesouros do mundo, deveríamos, sem a menor hesitação, preferir a graça.

Ora, desde o primeiro instante da concepção, que foi imaculada, a graça divina inundara a alma de Maria e essa graça não cessaria de crescer em proporções que desafiam os cálculos de nossas débeis inteligências. Por isso, São Gabriel A chamou: Cheia de graça.

Humildade da Virgem

Maria Santíssima compreendia perfeitamente a imensidade de Deus e o nada da criatura. Devido à sua prodigiosa humildade, Ela se espantou ao ouvir aqueles louvores.

Vendo a mais perfeita das criaturas ter sentimentos tão despretensiosos, o embaixador celeste acrescentou: “Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus; eis que conceberás e darás à luz um Filho, a Quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será o Filho do Altíssimo. Deus lhe dará o trono de seu pai Davi, e reinará eternamente e o seu reino não terá fim” (Lc 1, 30,33).

Espírito profundamente lógico de Nossa Senhora
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Logo após o primeiro elogio feito por São Gabriel, a Santíssima Virgem “meditava que saudação seria esta” (Lc 1, 29).

E quando o anjo anunciou-lhe que Ela seria Mãe de Deus, a Virgem indagou: “Como se fará isso, pois Eu não conheço varão?“. E ele respondeu-lhe: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá. E, por isso mesmo, o Santo que há de nascer de ti será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35-37).

União Hipostática

Compreendendo ser essa a santíssima vontade de Deus, a Virgem disse ao Anjo: “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra” (Lc 1, 38).

“Ó poderosa, ó eficaz, ó augustíssima palavra! — exclama São Tomás de Vilanova (1488-1555). Com um Fiat (faça-se) criou Deus a luz, o céu, a terra, mas com este Fiat de Maria um Deus se tornou homem como nós”.

Então operou-se a maior de todas as maravilhas. Pela ação do Espírito Divino começou a formar-se no seio da Virgem puríssima o corpo do Menino Jesus. O mesmo Espírito Santo uniu a esse corpo uma alma humana e juntou corpo e alma à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Essas três partes de uma mesma operação foram simultâneas, e esse sublime mistério é denominado pela Teologia de União Hipostática. Na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo — verdadeiro Deus e verdadeiro Homem — se unem as naturezas divina e humana.

Maria, Mãe de Deus

A Virgem é Mãe de Deus porque gerou alguém que é Deus. Não é, porém, Mãe da Divindade ou da natureza divina; é Mãe duma Pessoa Divina enquanto produziu, no tempo, a natureza humana dessa Pessoa.

Ora, Maria é mãe no sentido próprio. Pois o sujeito gerado é Deus ou uma Pessoa Divina, e não uma pessoa humana que depois foi feita Deus. O filho da Virgem é Deus no momento da concepção. No mesmo instante em que foi homem, foi Deus e homem, porque a natureza humana de Jesus estava destinada a subsistir, unida à natureza divina, na Segunda Pessoa divina.

Esses pontos são doutrina de fé, explicitamente definida e de primeira importância no dogma da Encarnação, pois compreende:

1. A declaração da natureza humana de Cristo, sem a qual não haveria a maternidade de Maria.
2. A declaração da natureza divina de Cristo; do contrário, o filho de Maria não poderia chamar-se Deus.
3. A declaração da união hipostática das duas naturezas na mesma pessoa, a divina; só assim pode ser um mesmo, o filho de Deus-Pai e o filho de Maria.
4. A declaração desta união desde o instante da concepção de Cristo; do contrário, a mãe de Cristo-Homem não se poderia chamar e ser Mãe de Deus.
Maria é chamada verdadeiramente Mater Dei, em latim, ou Theotokos, em grego, conforme definiu solenemente o Concílio de Éfeso, no ano de 431.
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Fontes de referência:
Santo Afonso Maria de Ligório,
Glórias de Maria Santíssima,
Vozes, 1964.
– Cônego Raymond Thomas de Saint-Laurent,
La Vierge Marie, Aubanel Frères – Avignon, 1927.
Frei J. Armindo Carvalho, O.P., Maria no plano de Deus, Cadernos Culturais, 1, Braga, 1958.
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